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Homens ficam com 70% das vagas de salários mais altos

Valor Econômico

No Brasil, a cada 100 empregos com remuneração mensal superior a 20 mínimos, 70 ficam com os homens

Por Denise Neumann

No Brasil, a cada 100 empregos com salário mensal superior a 20 salários mínimos, 30 são ocupados por mulheres e os demais 70 ficam com os homens. E isso ocorre mesmo diante da maior qualificação das mulheres. A cada 100 profissionais contratados com doutorado, 53 são mulheres, formação que não lhes garante, proporcionalmente, melhores salários. Os dados são da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2020 e refletem o mercado formal de trabalho, público e privado juntos. Esses números consolidam um cenário que pouco mudou em duas décadas: em 2002, as mulheres ocupavam 27 em cada 100 vagas com salário superior a 20 mínimos.

Setorialmente, os dados são ainda mais reveladores da desigualdade de gênero do mercado de trabalho brasileiro. No setor de transporte aéreo apenas três em cada 100 vagas no topo salarial são ocupadas por mulheres. Na indústria, a produção de móveis se mostra como o segmento mais desigual: apenas seis em cada 100 vagas de maiores salários são femininas; na outra ponta, a presença de mulheres tem crescido de forma consistente na indústria farmacêutica e hoje representa 40% do total de vagas de liderança (medidas pelo salário). O setor mais equânime em gênero é o de serviços de saúde, com 45% de vagas acima de 20 mínimos ocupadas por mulheres, enquanto na administração pública, 35% das vagas no topo salarial são ocupadas por mulheres.

Se a indústria farmacêutica hoje tem mais de uma mulher presidente, Silvia Sfeir, diretora de negócios institucionais & acesso ao mercado da Bayer, lembra que foi a primeira mulher diretora de vendas no setor quando foi nomeada em 2006 na Bristol-Myers Squibb. “Eu era um cisne negro no setor farmacêutico e senti preconceito do time interno e também externo”, conta Sfeir, que tinha sob seu comando direto uma equipe de dez gerentes, todos homens.

Apesar do preconceito enfrentado em 2006, Sfeir relata que o momento mais desafiador de sua carreira foi em 1995 quando assumiu uma gerência de vendas na Monsanto. A empresa, na época, procurava uma mulher não agrônoma para a vaga em um setor no qual mais de 90% dos clientes eram homens e onde ela começou a trabalhar grávida de cinco meses. “Eu era menos madura e achei que eu precisava ser mais masculina para ser aceita”, relembra Sfeir. “Mas foi um erro porque eu acabei não sendo eu mesma no começo. Depois entendi que eu também precisava me aceitar na vaga”, acrescenta.

Para Sfeir, a maior presença de mulheres na indústria farmacêutica, relativamente a outros setores, está relacionada ao próprio perfil do setor (associado a cuidados), a forte presença de mulheres nas faculdades de farmácia e também à influência externa pela presença de multinacionais. “Nos Estados Unidos e na Europa, o debate da diversidade está mais avançado que no Brasil”, diz a executiva. “Mas hoje já vejo mais mulheres em cargos de direção por aqui e todas as que chegam são muito bem preparadas”, diz ela. Mas as mulheres, avalia, ainda são sempre mais chamadas a provar sua capacidade que os executivos homens.

Ao contrário do setor farmacêutico, a indústria de móveis no Brasil ainda é predominantemente de capital nacional e formada por pequenas empresas familiares (98% das empresas possuem menos de 100 empregados), o que ajuda a explicar a baixa presença de mulheres nos cargos mais altos, embora os dados revelados pela Rais tenham sido uma surpresa para Candida Cervieri, diretora-executiva da Abimovel, associação que representa as empresas do setor.

Para Cervieri, os 6% de presença feminina entre os salários acima de 20 mínimos não refletem a real situação do setor. “É um setor que tem na sua raiz uma formação masculina e familiar, mas hoje temos várias mulheres em cargos importantes, de direção. Elas não estão mais só no marketing ”, diz ela. Como os dados da Rais consideram contratações pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e os cargos de direção são frequentemente contratos de pessoa jurídica, eles podem não retratar a real situação do setor moveleiro, diz.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) não possui uma política setorial de promoção da equidade gênero, sendo essa uma questão de cada companhia. Dados de fevereiro de 2021 corroboram a baixa presença feminina nos cargos de maior salário no setor: entre os pilotos e co-pilotos, apenas 3% e 4% eram mulheres, respectivamente, e não havia nenhuma mecânica de voo entre as aeronautas contratadas.

Parte dessa desigualdade está presente na formação. O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) começou a aceitar mulheres apenas em 1996, quando apenas duas mulheres passaram no vestibular para as 120 vagas de perfil civil. Ao longo desses mais de 20 anos, contudo, a presença de alunas cresceu pouco e as mulheres têm ficado com apenas 6% das vagas, em média, nos últimos anos. Mas entre as vagas militares, no vestibular 2022, duas mulheres ganharam seu lugar entre as 30 vagas reservadas para esse perfil.

https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2022/04/28/homens-ficam-com-70-das-vagas-de-salarios-mais-altos.ghtml