Final da crise significa muitos pedidos de demissão (Claudio Garcia)

Com o avanço da vacinação e queda no número de mortes por covid, em vários países empresas começaram a discutir a volta ao escritório e a continuidade do trabalho remoto. Mas muitas foram pegas de surpresa com outra questão: a quantidade enorme de profissionais pedindo demissão. Apenas nos Estados Unidos, cerca de 7,5 milhões de pessoas pediram para sair de seus empregos em abril e maio últimos, um recorde histórico. Esse efeito, que está sendo chamado de “A Grande Resignação”, tem sido observado principalmente em países que estão retornando a uma vida mais “normal’. A tendência parece ser o resultado da combinação de um boom de ofertas de emprego com uma grande quantidade de profissionais com gana, ansiosos por um novo trabalho.

Essa realidade ainda deverá afetar muitos outros países. Segundo uma pesquisa da Microsoft, cerca de 41% dos profissionais de várias nações pretendem deixar seu trabalho atual em até um ano, número que dobrou nos últimos doze meses. Para empresas, esse ‘êxodo’ significa projetos atrasados, perda de conhecimento, maiores custos com recrutamento e perda de oportunidades de crescimento. Apesar desse aumento repentino nos pedidos de demissão, isso realidade não deveria surpreender. Não é novidade que a retenção de pessoas é maior durante recessões – quando não há tanta oferta e os profissionais ficam mais conversadores, com medo de perder sua renda – e menor quando economias estão se recuperando. Não é possível afirmar que a troca de emprego pode ser creditada à discussão sobre formato de trabalho (remoto, híbrido ou presencial) como muito tem sido alardado em redes sociais e mídia especializada. Óbvio que a experiência com o trabalho remoto impactou a forma como as pessoas lidam com o trabalho e várias delas adotaram a flexibilidade como uma variável importante. Mas indivíduos gostam de mudar por muitos motivos: progressão de carreira, incompatibilidade com culturas e líderes, salários e benefícios mais atrativos ou para experimentar algo novo. Muitos desses desejos ficam represados quando existem menos possibilidades – e explodem quando as oportunidades vêm. Nada que seja desconhecido e que não possa ser mitigado.

Se essa realidade ainda não está acontecendo no Brasil é porque não saímos da crise. E poderá ser ainda mais intensa. Primeiro porque nossa crise começou bem antes – nossas taxas de desemprego estão nos dois dígitos há quase seis anos. Segundo porque existem vários problemas estruturais na educação da população, as capacidades disponíveis são limitadas e disputadas – muitos devem lembrar dos salários inflacionados durante o último boom econômico do país no início da década passada, já que recrutar significava tirar de outra empresa pagando mais. E terceiro, o Brasil é um país sem uma política orientada a talentos estrangeiros, o que tem sido essencial para várias nações suprirem suas deficiências de competências, principalmente em áreas de alta tecnologia. A China recentemente lançou um programa de incentivos, elogiado por críticos, para atrair talentos estrangeiros – e os resultados iniciais estão sendo promissores. A grande resignação é um sinal positivo de que economias estão se recuperando. Mas momentos como esse expõem as fragilidades das culturas, lideranças e processos de gestão de pessoas de organizações – que ainda têm a oportunidade de reagir. Porém, também expõem as fragilidades da estratégia para talentos de uma nação, que precisa muito mais que boa vontade para se transformar. Não à toa, mesmo em bons momentos econômicos globais, o Brasil constantemente cresce abaixo da média do resto do mundo. Algo para ficar atento.

Claudio Garcia é professor adjunto de gestão global na Universidade de Nova York

VALOR ECONÔMICO