Estratégias das empresas centenárias para sobreviver a pandemias e guerras mundiais

Elas enfrentaram a Gripe Espanhola, duas guerras mundiais, revoluções, a Grande Depressão de 1929, levantes militares, todo tipo de instabilidade econômica do país e, agora, a pandemia de covid-19. E continuam em pé.

Empresas com mais de 100 anos de existência buscam na sua longa trajetória subsídios para a tomada de decisões que permitem atravessar de maneira segura mais um período de turbulências, desta vez provocadas pelo coronavírus. Uma das principais armas para a longevidade, segundo executivos de companhias centenárias, é a capacidade de se reinventar ao longo da história para adaptar-se aos novos tempos e a resiliência para atravessar momentos difíceis.

“Sabe o que eu digo da empresa? Ela nasceu na esteira da Primeira Guerra Mundial, sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, a meia dúzia de revoluções, uns 15 planos econômicos e vai fazer 100 anos”, diz o presidente da laticínios Aviação, Geraldo Alvarenga Resende Filho, no livro em comemoração ao centenário da empresa, celebrado no ano passado. A marca nasceu na capital paulista, em 1920, mas se consagrou ao mudar a sede para São Sebastião do Paraíso (MG), em 1977, onde está até hoje. “A pior crise enfrentada por uma empresa ao longo da sua história é sempre a atual, pois se sabe como ela começou, mas nunca como terminará”, explica o vice-presidente da Aviação, Roberto Rezende Pimenta Filho, que é bisneto do fundador. Segundo ele, a receita da empresa familiar para atravessar os momentos de incerteza, como o atual, é o conservadorismo estampado até nos rótulos dos produtos como manteiga, queijos e doce de leite: o avião sobre fundo laranja. É uma estampa tão conhecida que remete o escritor Ignácio de Loyola Brandão aos tempos da Segunda Guerra Mundial e da infância em Araraquara (SP), sua terra natal.

“Foi então que dei com uma lata vermelho-alaranjada de não sei quantos quilos de manteiga Aviação, a mais bonita que havia, com aquele avião desenhado”, registrou o escritor no livro comemorativo da empresa. No caso, Loyola conta a história dos meninos araraquarenses que adaptaram latas de manteiga para a construção de lanternas caseiras, alimentadas por vela, com o objetivo de driblar o racionamento de energia elétrica ocorrido durante o período da guerra. “Sempre crescemos e nos modernizamos, mas somos muito conservadores na tomada de decisões. Preferimos um crescimento gradativo e sólido”, afirma Pimenta Filho. “O bolso do brasileiro está menor. Por isso ele não gosta de errar na hora de comprar um produto e prefere as marcas antigas e nas quais ele confia.”

A Aviação, que hoje tem capacidade total de produzir 600 mil unidades por dia de seus produtos, continua apostando na diversificação para continuar a crescer. Uma delas é o café solúvel, que entrou na linha de produtos há seis anos. “Nossa meta é ser uma empresa que fornece o café da manhã completo do brasileiro”, diz Pimenta Filho. Um dos momentos mais difíceis para a Aviação foi nos anos 1980, com o tabelamento de preços de produtos no varejo imposto pelo governo federal para tentar driblar a hiperinflação que assolava o país. Naquele período, diretores do laticínio tiveram de ir várias vezes a Brasília para negociar os preços da tabela com a Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), órgão federal responsável pelo tabelamento de preços dos produtos aos consumidores.

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