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Empresas mudam seus escritórios com adoção do trabalho híbrido

Novos ambientes favorecem interação e criatividade

Por Jacilio Saraiva, Para o Valor

Escritórios de grandes empresas reabrem com cara nova em 2022. Com o impacto da pandemia e a adoção de expedientes que mesclam o trabalho remoto com o presencial, os espaços apostam em layouts que estimulam novas formas de interação e colaboração entre funcionários. Pesquisa da consultoria KPMG com 361 companhias no Brasil, de setores como varejo, energia e tecnologia, indica que 38% reduziram o tamanho do ambiente de produção durante o confinamento – e pretendem mantê-lo mesmo após a vacinação em massa –, enquanto 14% passaram por uma redução nas lajes, mas esperam retomar as metragens anteriores. Para a maioria dos gestores, a mudança é mais relevante na forma como as áreas são usadas do que na quantidade de pavimentos que deixam de ser ocupados pelas organizações.

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“Desde o início do nosso projeto de reforma, queríamos proporcionar aos funcionários um espaço onde eles e elas quisessem ficar, que potencializasse a criatividade e a conexão, além de transmitir uma sensação de estar em casa”, diz Fábio Barbagli, vice-presidente de RH da PepsiCo Brasil. “Hoje, temos um escritório mais eficiente, que promove o bem-estar por meio de elementos de decoração, paisagismo e cores.” Com mais de 12 mil empregados – sendo cerca de 10% da área administrativa que atuam de forma flexível, sem obrigatoriedade de dias de presença no escritório –, a dona de marcas como Doritos e Toddy reabriu as portas em março, com um novo visual nas salas.

A proposta contempla cinco andares que a empresa ocupa no edifício JK 180, no bairro paulistano da Vila Olímpia, em uma área de 4,2 mil metros quadrados. Com a reformulação, passou a oferecer no local pouco mais de 600 postos de trabalho. Anteriormente, eram dez andares ocupados, com capacidade para 1,2 mil pessoas. “Mesmo antes da pandemia, já estimulávamos o home office pelo menos uma vez por semana.”

Mais do que simples “liberação” dos escritórios, Barbagli diz que o momento marca uma nova forma de trabalhar, com mais autonomia e poder de decisão para as equipes. “Elas podem escolher o ambiente em que vão trabalhar e a experiência que querem ter.” O planejamento para “pensar” o espaço e os formatos de uso durou 18 meses, enquanto a execução da obra aconteceu em menos de um ano. Os ambientes foram desenhados para serem colaborativos, com áreas para criação, conexão, colaboração e celebração. Por meio de um aplicativo, os funcionários reservam mesas e pontos de reunião. Há zonas de convívio, espaços para cafés, sofás para pequenos grupos, além de salas para reuniões internacionais, com estrutura para videoconferências. “Sem espaços predeterminados, o intuito é transmitir uma companhia mais ágil e menos hierárquica”, afirma. “Muitos executivos têm aproveitado o espaço para conhecer seus times, pois várias pessoas entraram na companhia no período em que o escritório estava fechado.”

Na Loft, startup de compra e venda on-line de apartamentos com 1,2 mil funcionários, a nova sede do Itaim Bibi, na capital paulista, foi apresentada em novembro de 2021. “O tamanho se manteve”, diz a diretora de RH Renata Feijó. A área do prédio, de 3 mil metros quadrados, se distribui em cinco andares, com um rooftop. Com a reforma, ganhou 42 ilhas para interações, 19 cabines de videoconferências, três salas para encontros rápidos e outras 16 para reuniões, além de zonas para eventos e 200 mesas. “No total, são mais de 600 espaços de trabalho.”

Feijó diz que o investimento foi feito para facilitar a “troca” entre quem está em casa e quem opera no local – há 13 ilhas de mesas com tecnologia adequada para interações. A transformação também foi pautada com os valores da companhia, que indicam os pavimentos do edifício: orientado para o cliente, orgulho de construir, vencer juntos, seja adaptável e seja você mesmo.

A executiva explica que o QG da Loft agora é, principalmente, para construções colaborativas e eventos de integração. “Existe para eliminar qualquer fricção entre o remoto e o presencial”, diz. Desde o ano passado, o grupo adotou um modelo de trabalho em que o funcionário, junto à liderança, define o modelo de atividades: presencial, a distância ou híbrido.

Com o escritório reformado, a retomada da presença dos funcionários foi aos poucos, conforme a vacinação avançava no país e as regras de isolamento eram flexibilizadas, destaca. “Todos os colaboradores que vão ao local precisam cadastrar o comprovante de vacina.” Também foram feitas pesquisas com o quadro para saber o que seria importante ter nos novos corredores. “O escritório passou a ser um símbolo da nossa cultura.”

Na esteira da operação virtual da marca, a recepção tem recursos digitais: funcionários, clientes e parceiros fazem “check-in” por meio de um tablet. Nas salas de reunião, lousas interativas permitem que as audiências, presenciais e remotas, vejam o que está sendo escrito; enquanto telões de LED nos saguões compartilham conteúdos internos. “As reuniões de alinhamento são transmitidas, ao vivo, do terraço. Quem está em casa pode encaminhar perguntas para os líderes, em tempo real.”

Marco Castro, sócio-presidente da consultoria PwC Brasil, com cerca de 5 mil profissionais, diz que o conceito de escritório foi redefinido com uma palavra: colaboração. “Na realidade, o que fizemos foi ‘reconceituar’ totalmente os espaços”, diz. “Não há sequer um ponto para trabalhos individuais. O local passa a cumprir o papel de integrar pessoas em momentos de criação.”

A PwC Brasil inaugurou, entre dezembro de 2021 e maio de 2022, dois espaços em São Paulo: em Barueri, município da região metropolitana; e no novo edifício B32, na Avenida Faria Lima, complexo corporativo com praça, restaurante e teatro.

Na capital paulista, o grupo contava com uma operação no bairro da Água Branca, em um prédio de 20 andares. Após a adoção do trabalho híbrido em dezembro de 2021, migrou para os novos endereços. A redução de área ocupada ultrapassou 50%, mas com recintos mais dinâmicos, segundo Castro. “Não há paralelo entre o que existia antes e o que temos agora.”

As áreas “customizáveis” se transformam de acordo com as necessidades dos times e projetos, e ninguém tem salas ou estações de trabalho fixas. As reservas de mesas, armários e equipamentos são realizadas via app, que também funciona como um crachá digital que dá acesso às instalações por meio de um QR Code. “A configuração é ideal para favorecer modelos de trabalho mais ágeis, como ‘squads’ e sessões de design thinking.”

A intenção, diz o presidente, é remeter ao conforto das salas de estar, com nichos menores, equipados com flip charts (painéis) eletrônicos e cortinas que funcionam como divisórias. Há salas de reunião com telões para apresentações e conexão com outras equipes e paredes onde se pode escrever. O plano de Castro é levar o modelo para os demais 13 escritórios no país no prazo de 18 meses.

Simony Morais, diretora corporativa de gente e gestão da Locaweb Company, de soluções digitais para negócios, diz que o confinamento social foi a deixa para restaurar o escritório de quase 4 mil funcionários no Jardim Morumbi, em São Paulo. “Durante a pandemia, 97% dos colaboradores estavam totalmente remotos”, lembra.

Uma das receitas utilizadas no local renovado é explorar mais as reuniões rápidas “no meio do escritório”. De acordo com a executiva, 40% dos empregados estão a distância, 32% atuam no modelo híbrido e 28% na opção presencial. Com as mudanças no expediente, a presença de profissionais no espaço alcança apenas de 20% a 30% da quantidade que havia nos anos pré-pandemia.

Edise Toreta, head de RH na Merck para o Brasil e América Latina, afirma que uma das intenções da gigante da área de ciências e tecnologia é oferecer mais espaços de convivência para garantir o fluxo de conhecimentos. O escritório, na região paulistana do Brooklin Novo, foi reconstituído em agosto de 2021. Ocupava, antes, dois andares do conhecido edifício “Robocop”, com uma área de 1,8 mil metros quadrados. Agora, se concentra em um pavimento de 1,2 mil metros quadrados, detalha. “Mesmo com o trabalho flexível, os colaboradores frequentam o escritório de duas a três vezes por semana, principalmente para reuniões”, explica.

O ambiente inclui 84 estações de trabalho, 11 salas de reunião e mais cinco unidades menores que, juntas, comportam 80 executivos. Há armários individuais para guardar pertences e dependências de apoio à amamentação para as funcionárias. Tudo foi pensado coletivamente, garante Toreta. “Durante os quase seis meses de reforma, os colaboradores puderam participar de decisões como a seleção dos temas que dão nomes às salas. Hoje, podemos nos encontrar em áreas chamadas de Arcos da Lapa ou Ilha de Marajó”, diz.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/07/05/empresas-mudam-seus-escritorios-com-adocao-do-trabalho-hibrido.ghtml