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Emprego formal deve perder força nos próximos meses

Valor Econômico – 30/09/2021 –

O mercado de trabalho formal registrou aumento de vagas com carteira assinada em agosto, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho e Previdência. Os setores de serviços e comércio puxaram a criação de vagas, impulsionados pela flexibilização das restrições. Economistas alertam, contudo, que esse patamar não deve se manter nos próximos meses e no ano que vem.

O mercado de trabalho registrou abertura líquida de 372.265 vagas com carteira assinada em agosto, resultado de 1.810.434 contratações e 1.438.169 desligamentos no período, segundo os dados do Caged.

O resultado ficou acima do teto das projeções coletadas pelo Valor Data junto a 16 consultorias e instituições financeiras, de 351 mil vagas, com piso das estimativas em 175 mil e mediana em 311,5 mil. O resultado também é melhor do que o registrado no mesmo mês do ano passado, quando foram criadas 242.543 vagas.

Houve abertura de vagas nos cinco setores da economia. O saldo ficou positivo em agricultura (9.232), indústria geral (72.694), construção (32.005), comércio (77.769) e serviços (180.660).

Rodolfo Margato, economista da XP, ressalta que o destaque ficou por conta do setor de serviços, em meio à reabertura. “Desde maio houve saldos robustos no setor terciário, e isso deve continuar nos próximos meses”, diz. Segundo Margato, a recuperação do nível de emprego é um dos principais fatores que levam a XP a projetar crescimento de 1,3% para 2022.

O governo continua com a meta de gerar 2,5 milhões de empregos até dezembro, disse o ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni. “A recuperação econômica que o Brasil vem tendo é extremamente sustentável”, afirmou.

Ele destacou o avanço da vacinação no país e disse que a criação de programas voltados para quem está fora do mercado de trabalho continuará sendo um caminho buscado. “Esperamos dar passos ainda maiores”, afirmou.

Os dados divulgados ontem devem ser vistos com cautela, afirmam economistas. Segundo Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, considerando os dados com ajuste sazonal, o que se observa é uma desaceleração na criação de postos formais: de 331,6 mil postos em julho para 296,2 mil postos em agosto.

Donato afirma que a criação de vagas com carteira assinada deve desacelerar até o fim do ano e mais em 2022, quando termina o Benefício Emergencial para Preservação de Renda e do Emprego (BEm), programa de proteção do emprego do governo federal.

A LCA espera que as contratações cheguem próximo de 200 mil até o fim do ano e que o número de contratos com garantia provisória de emprego devido ao BEm passe de 2,77 milhões em agosto para 2 milhões já em setembro. O programa deve manter mais de 1,3 milhão de empregos formais sob seu guarda-chuva até dezembro.

“Se 2021 deve encerrar com a criação de 3 milhões de postos, para 2022 esperamos um número próximo de 1 milhão, alinhado ao crescimento mais próximo do potencial”, diz o economista. A consultoria prevê crescimento de 4,8% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2021 e de 1,7% para 2022.

Para 2022, há desafios importantes à retomada do emprego, diz Tiago Barreira, economista da consultoria iDados. “Esperamos desaceleração em função de um quadro de maior incerteza econômica, com fatores como crise energética, aceleração da inflação, atividade mais fraca e juros mais altos, além de incertezas fiscais”, afirma.

As cifras do Caged de agosto escondem uma retomada difícil do emprego no Brasil, argumenta Daniel Duque, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Ele diz que os dados do Caged não têm dialogado com outros indicadores do mercado de trabalho e da situação atual da economia – em 2020, o Caged passou por mudanças metodológicas.

Duque compara o Caged à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, por exemplo, que mostra um quadro mais pessimista. “Vemos aumento do número de empregos informais, sendo muitos autônomos. O número de ocupados por conta própria está maior do que antes da pandemia”, argumenta. “O quadro geral do emprego é muito mais fraco e com rendimento muito abaixo do nível pré-pandemia.”

Ontem o secretário de Trabalho do Ministério do Trabalho e Previdência, Luis Felipe Oliveira, disse que houve queda no salário médio de admissão dada a reabsorção de trabalhadores menos qualificados no mercado formal.

“No momento em que o mercado de trabalho esfriou, trabalhadores de menor qualificação, menor treinamento e experiência foram demitidos. Quem estava sendo contratado, em geral, eram trabalhadores que tinham maior qualificação e, consequentemente, maiores salários”, afirmou.

O salário médio de admissão em agosto foi de R$ 1.792,07. Comparado a julho, houve redução real de R$ 25,78, queda de 1,42%.