Economia acelera, mas renda do trabalho patina (Fabio Graner)

Apesar da projeção mais alta de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB), a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia projeta números piores para o mercado de trabalho neste ano. O cenário é de uma queda na população ocupada com carteira assinada de 0,45% e, na renda real dos trabalhadores, recuo de 2,4%.

Os números, baseados na Pnad Contínua do IBGE, compõem a grade de parâmetros econômicos que o governo utiliza para a cada bimestre projetar receitas e despesas. E, nesse caso, são piores do que a SPE trabalhava em março – quando previa alta de 2% na população ocupada e queda de 1,7% na renda real. Cenário da SPE para este ano é de queda de emprego e renda O subsecretário de Política Macroeconômica da pasta, Fausto Vieira, explicou ao Valor que os números mais baixos refletem os dados realizados até o momento, mas não significam que não há recuperação do mercado de trabalho. “Os dados são uma média do ano, que tem números [realizados] mais baixos, mas existe uma tendência de recuperação e isso é muito claro na grade de parâmetros”, disse.

Para ele, as estimativas não permitem dizer que a expansão mais forte do PIB (prevista em 3,5% para 2021) não afetará renda e empregos positivamente. “O crescimento está impactando, sim, tanto a renda como a população ocupada com carteira assinada. Mas a recuperação, como aqui a gente está olhando a média do ano, tem indicação de ser mais lenta”, afirmou. Vieira chama a atenção ainda para uma questão estatística, na dinâmica esperada da renda, e que evidenciaria uma retomada nas contratações. No ano passado, mesmo com cortes de vagas, a renda média real aumentou 2,7% porque as demissões ocorreram em postos de menores salários. Em 2021, com as contratações voltando a acontecer, estaria havendo o efeito inverso. A economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, reconhece o efeito estatístico, mas aponta que desde a segunda metade de 2020 a recuperação da atividade econômica tem sido mais intensa do que a do mercado de trabalho. “Essa foi uma discrepância desta crise que a gente vem notando. E o fato de o mercado de trabalho ainda estar com essa capacidade ociosa grande é fonte de preocupação e risco para o nosso cenário”, disse. “A gente viu a recuperação mais rápida na economia do que no mercado, porque os setores que voltaram mais fortemente são menos intensivos em trabalho.”

Ela está no grupo dos mais otimistas com o crescimento do PIB neste ano e projeta 4,2% de expansão. Porém, destaca que a recuperação do mercado de trabalho está muito relacionada ao andamento da vacinação, que se desacelerou. “Os setores que não voltaram ainda são os mais intensivos em trabalho, como de serviços e serviços às famílias. Na hora que a vacinação avançar um pouco mais e a gente retirar essas restrições, o mercado de trabalho vai voltar rapidamente”, afirmou Rafaela, que projeta queda do nível de desemprego dos atuais 14,4% para 12,3%. O presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Antonio Corrêa de Lacerda, destaca que a inflação em alta está afetando negativamente o poder de compra da população. “A renda real está caindo porque a inflação está se acelerando, em especial a do dia a dia das pessoas, alimentos, energia, gás de cozinha. E o emprego sofre com o abalo de muitos setores. Há uma reação, mas não no ritmo necessário”, diz.

Mais pessimista que o mercado, ele enxerga o PIB neste ano crescendo entre 2,5% e 3%, insuficiente para recompor a perda do ano passado. “Não há grande perspectiva de aceleração que geraria fortes contratações”, disse. Lacerda destaca que, com a soma de desalento (pessoa que não procura mais vaga) e subempregos, há um conjunto de mais de 32 milhões de pessoas em situação ruim no mercado de trabalho. “Esse é um dos elementos que impedem retomada mais firme, não há sustentação do consumo.” Mesmo que haja alguma melhora no próximos meses, o fato é que há muito tempo a economia brasileira tem deixado a desejar para os trabalhadores, a despeito das promessas feitas de milhões de vagas com as reformas trabalhista e a previdenciária. A pandemia, que é um evento que não se podia prever, tornou o quadro ainda mais dramático. E, para piorar, o governo tem cometido falhas na vacinação. Essa é elemento essencial para a retomada, como a própria SPE frisou na terçafeira. Assim, cabe insistir na pressão sobre o governo para acelerar a imunização. Bolsonaro, com sua postura errática, custa caro para a saúde do trabalhador e para sua luta por sustento.

Austeridade
O Boletim Macrofiscal e o Panorama Macroeconômico divulgados pela SPE são bons materiais para consulta. Na nova edição, além de projeções, os técnicos apresentaram estimativas sobre o resultado primário estrutural, aquele que tenta limpar da estatística variações fora do padrão na economia e fatores não recorrentes. O subsecretário de Política Fiscal, Erik Figueiredo, e os técnicos que trabalharam diretamente as contas, Sergio Gadelha e Bernardo de Andrade, detalharam os dados ao Valor. Os números apresentados mostram que o governo central teve déficit estrutural de 1,31% do PIB em 2020, resultado melhor do que o 1,64% do PIB de 2019. Foi a quarta redução (contração fiscal) seguida no déficit por essa metodologia.

Ou seja, retirado aquilo que foi imposto pela pandemia, a trajetória de austeridade foi mantida em 2020. Informações mais detalhadas sobre esses números e sua metodologia devem ser divulgadas hoje. Para o setor público como um todo, por causa do desempenho dos Estados e municípios, o déficit estrutural subiu, com estímulo fiscal de 0,17% do PIB. Especialista em contas públicas e um dos pioneiros no uso dessa metodologia no Brasil, o economista Sergio Gobetti aponta que faz sentido retirar o gasto da pandemia na conta do resultado estrutural. Mas, para calcular o impulso fiscal na economia, não seria o caso. “Do ponto de vista de impulso fiscal, ele está claramente subestimando, porque, como houve esse gasto [da pandemia], é uma despesa efetiva que injetou demanda e compensou a queda do gasto privado”, afirma. O economista-chefe da RPS Capital, Gabriel Leal de Barros, aponta que seria interessante para o Brasil ter um cálculo mais consensual entre academia, mercado e governo para o resultado estrutural. Isso permitiria um debate público mais claro sobre a política fiscal.

Fabio Graner é repórter.

VALOR ECONÔMICO