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Desemprego se torna mais um desafio para BC domar inflação

Valor Econômico

Melhora do mercado de trabalho pode pressionar preços

Por Anaïs Fernandes e Marcelo Osakabe 

A recuperação mais rápida do que o esperado do mercado de trabalho ameaça impor, mais à frente, um novo desafio à tarefa do Banco Central de domar a inflação. Isso porque, após a forte surpresa com a queda da desocupação em abril, economistas já veem a taxa de desemprego corrente inferior à “neutra” – aquela abaixo da qual o emprego começa a pressionar os índices de preços.

Na média móvel de três meses do IBGE, a taxa de desocupação caiu de 11,1% até março para 10,5% em abril. No cálculo dessazonalizado da MCM Consultores, foi para 10,1%, abaixo da estimativa de desemprego de equilíbrio da casa, que está em 10,8%.

O desemprego de equilíbrio, ou taxa de desemprego que não acelera a inflação (Nairu, na sigla em inglês), é um conceito da economia que diz existir um nível a partir do qual o mercado de trabalho começa a ser fonte de inflação. Essa taxa não é uma variável observável, ou seja, cada economista tem o seu modo de estimar. “Claro que existe toda uma incerteza rondando o cálculo [da Nairu], mas é possível dizer que o mercado de trabalho chegou no equilíbrio, já não há mais ociosidade”, diz Alexandre Teixeira, economista da MCM.

Em séries mensalizadas e dessazonalidas, analistas estimam taxas de desocupação até em um dígito. Nas contas da XP Asset Management, ela chegou em 9,4% em abril, cerca de dois pontos abaixo do patamar do fim de 2021, nota o economista-chefe Fernando Genta. Ela também já estaria, segundo seus cálculos, ligeiramente abaixo da Nairu, que ele estima entre 8,5% e 9,5%. “Essa queda [do desemprego] se dá por um ritmo de contratação muito acelerado. De janeiro a abril, foram cerca de 3,5 milhões de vagas criadas. Só em abril, estimamos 1,9 milhão”, diz Genta.

Ele é cauteloso em extrapolar automaticamente a melhora do mercado de trabalho atual para o restante do ano, mas a XP Asset estima que a taxa de desemprego pode encerrar 2022 em 9% pela métrica trimestral do IBGE, com ajuste sazonal – ou 8,8% no dado mensalizado de dezembro.

“O cenário do Banco Central, sem dúvida, fica muito mais desafiador com essa dinâmica. Se o BC estiver sendo surpreendido com a velocidade da retomada da ocupação, como nós e boa parte do mercado, ele vai passar a estimar um hiato do produto menor do que tinha antes”, explica Genta. Com uma ociosidade da economia menor, acrescenta ele, a tendência é que as projeções da autoridade monetária para a inflação, principalmente em 2023 e 2024, também precisem andar.

O resultado traz preocupação adicional ao BC na medida em que os demais determinantes da inflação seguem pressionados, diz Teixeira, da MCM. “O BC já avançou bastante no ciclo de aperto, então é o caso de se ver se essas pressões inflacionárias levam a estender o ciclo [de alta da Selic], por exemplo, até agosto”, aponta.

O economista ressalta, por outro lado, que o desemprego não gera inflação imediatamente, logo que “escorrega” abaixo da Nairu. Assim como os efeitos defasados da política monetária, é preciso que essa situação se prolongue um certo tempo para que os trabalhadores consigam instrumentalizar o mercado de trabalho mais apertado em maior poder de barganha na negociação salarial. “Como a política monetária voltou a ser contracionista há algum tempo – espera-se que ela comece a fazer efeito no segundo semestre e mostre seu resultado máximo na virada do ano -, pode ser que não dê tempo de isso acontecer.”

Ainda que haja perda de ritmo da atividade no segundo semestre por causa do aperto monetário e da desaceleração global, exatamente pela reação defasada do mercado de trabalho, ele ainda pode continuar se sustentando no período e sentir esses efeitos só na virada para 2023, pondera Genta, da XP Asset. “Vamos ter duas forças se contrapondo”, afirma.

Para o Santander, o nível de desemprego também já se encontra abaixo da Nairu, que o banco estima em um patamar entre 12% e 13% atualmente. Caso essa situação se prolongue por mais tempo do que o esperado, o Brasil poderá reviver uma situação parecida com o que ocorreu no primeiro mandato de Dilma Rousseff, diz Daniel Karp, economista do banco.

Na época, lembra ele, a taxa de juros já estava alta, mas a inflação de serviços continuou girando em nível elevado durante algum tempo, mesmo com o restante da atividade desacelerando. “A indexação dos salários faz com que, mesmo com uma economia desaquecida, esse efeito perdure”, afirma.

Embora o setor de serviços não tenha sido o vilão da inflação até aqui, é o segmento que gera mais preocupação na margem, diz Karp. “Tem acelerado um pouco mais do que o imaginado e com certeza isso tem relação com o mercado de trabalho“, diz. “Se continuarmos vendo um mercado de trabalho mais aquecido por algum tempo, esse fator pode se tornar, sim, um risco para a inflação.”

Esse, no entanto, não é o cenário-base. O Santander avalia que a queda do desemprego deve retroceder na segunda metade do ano, ao passo que a Nairu se move para um patamar mais baixo, próximo de 9,5%, em razão da retomada e da reorganização do mercado de trabalho no pós-pandemia. Com isso, a taxa de desocupação deve voltar a superar o nível de equilíbrio em meados de 2023.

Para Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), a taxa de desemprego neutra está abaixo das estimativas de boa parte dos economistas, que giram em torno de 10% – ele mesmo a estimava em 9,5% cerca de três anos atrás, mas acredita que a barra caiu.

Em suas simulações, se essa taxa neutra fosse mesmo 9,5%, a inflação em 12 meses estaria rodando 1,5 ponto acima do observado – 13,5% a 14%, não os cerca de 12% registrados em abril. Fazendo a pergunta inversa – qual é a taxa de desemprego de equilíbrio que geraria a inflação observada nos últimos anos, considerando ainda variáveis como petróleo, câmbio? -, Borges concluiu que ela precisa estar ao redor de 8%. “Parece que isso não está sendo levado em consideração”, diz.

Uma hipótese é que essa mudança estrutural no desemprego de equilíbrio seja explicada pela reforma trabalhista, observa Borges. Um estudo do ano passado, dos economistas do iDados Bruno Ottoni e Tiago Barreira, estimou que, por causa da reforma, a taxa natural de desemprego do Brasil poderia cair de 1,2 a 3,5 ponto percentual no longo prazo. Conforme mostrou o Valor no mês passado, outro trabalho, de professores da USP e do Insper, por sua vez, calculou que a regra que transferiu aos trabalhadores os custos com advogado das empresas em caso de derrota na Justiça reduziu a taxa de desemprego em 1,7 ponto.

“Acho que essa questão da taxa de desemprego é secundária do ponto de vista inflacionário. Não que seja irrelevante, tem de acompanhar, mas acho que estamos distantes de um quadro em que o mercado de trabalho vai passar a pressionar a inflação junto com commodities e o câmbio”, diz Borges, acrescentando que, mesmo assim, o BC deveria divulgar para o mercado sua visão de Nairu.

Uma taxa de desemprego que preocupa em termos inflacionários ainda precisaria cair para mais perto de 6,5%-7%, diz o economista Juan Jensen, sócio da 4E e da 4intelligence. Ele nota que, a partir de abril, a sazonalidade costuma ser positiva para a queda do desemprego, mas, desta vez, não é possível saber se ela será plenamente usufruída por causa das incertezas eleitorais e do aperto monetário, que pressionam câmbio e investimentos. “O mercado vai estar mais receoso em tomar decisões e isso afeta o mercado de trabalho”, diz.

Ainda assim, a 4E estima que a taxa de desemprego pode se acomodar em 9,2% no fim do ano. “Claro que, na margem, o mercado de trabalho começa a pressionar um pouco mais a inflação do que nos últimos 12 meses. Mas, por outro lado, vamos ter uma descompressão de commodities e energia. E, ainda que o desemprego já tenha caído bastante, tem um contingente grande de desempregados no Brasil. Então, de alguma forma, o poder de barganha [dos salários] está mais do lado do empregador”, diz Jensen.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/06/06/desemprego-se-torna-mais-um-desafio-para-bc-domar-inflacao.ghtml