Desemprego requer um presidente que trabalhe


Jair Bolsonaro diz que não é sua tarefa criar empregos. Mas cabe ao presidente liderar projeto que rompa o ciclo de baixo crescimento, gerando oportunidades

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

Em uma conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro tentou se livrar de mais uma das várias responsabilidades inerentes ao cargo que ocupa. Em um país que apresenta um crescimento pífio há anos e um nível de qualidade na educação que deixa a desejar, Bolsonaro disse que cabe aos jovens “correr atrás” de emprego. “Você tem que correr atrás. Eu não crio emprego. Quem cria emprego é a iniciativa privada. Eu não atrapalho o empreendedor”, disse. A declaração do presidente, longe de causar surpresa, segue a linha bolsonarista segundo a qual a culpa por qualquer problema nunca é dele, sempre dos outros – seja das administrações petistas, dos governadores ou do Supremo Tribunal Federal (STF). O que chama a atenção nesse caso em específico é a concepção deformada do presidente sobre o papel de um governante na construção do futuro do País.

Poucas coisas revelam mais sobre a profundidade da crise de um país sobre a falta de perspectivas do que o comportamento dos mais jovens diante do mercado de trabalho. A taxa de desemprego das pessoas com idade entre 18 a 24 anos atingiu 22,8% no primeiro trimestre deste ano, o dobro da média da população, de 11,1% no mesmo período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No segundo trimestre de 2021, 12,3 milhões de brasileiros de até 29 anos não estudavam nem trabalhavam, de acordo com estudo da consultoria IDados com base na Pnad Contínua do IBGE. Buscar um diagnóstico sobre as razões por trás desse fenômeno crônico e atacar suas dimensões de forma articulada com Estados, municípios e o setor privado seria uma tarefa urgente para qualquer presidente.

Historicamente, a indústria sempre foi o setor que mais gerou vagas e que pagou os salários mais altos. Nos últimos anos, no entanto, o País oscilou entre a fracassada escolha de campeões nacionais do lulopetismo e a ausência completa de uma política industrial da administração bolsonarista. Essa ciclotimia, naturalmente, gerou reflexos no mercado de trabalho. Desde 2011 a indústria acumula o fechamento de 1 milhão de empregos, segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) – Empresa 2020, divulgada pelo IBGE. Mais da metade das vagas fechadas se deu nos setores que mais empregavam, como vestuário, calçados e produtos de metal. Em contrapartida, setores dinâmicos e que sobrevivem sem ajuda do governo, como o de tecnologia da informação, não conseguem encontrar mão de obra especializada. A digitalização da economia em todos os segmentos da sociedade só aumentou desde a pandemia de covid-19 e atinge até atividades mais simples ligadas à agricultura e serviços. Diante da ausência do Estado, muitas empresas têm tomado para si a tarefa de formar e treinar seus próprios empregados. Nada disso exime o governo de oferecer aos jovens uma educação de qualidade desde o ensino básico.

Romper o ciclo de baixo crescimento da economia demandará uma política que interrompa o processo de desindustrialização do País e que, em paralelo, priorize a educação e qualificação dos mais jovens para que os empregos de qualidade a serem gerados possam ser devidamente ocupados. O empreendedorismo mencionado por Bolsonaro não salvará a juventude nem o desempenho do PIB, sobretudo um conceito distorcido sustentado à base de incentivos fiscais, caso da figura do microempreendedor individual (MEI). 

Várias são as responsabilidades de um governante, e elas são ainda mais desafiadoras em um país tão desigual e com carências históricas como o Brasil. Chegar à Presidência da República talvez seja a maior honra para quem escolhe seguir o caminho da vida pública. A recusa de Bolsonaro em assumir a responsabilidade de governar levanta dúvidas sobre os reais motivos que o levam a fazer tudo por sua reeleição. Não é por acaso que os piores índices de aprovação de sua administração estejam justamente entre mulheres, jovens de baixa renda e menor grau de escolaridade. São elas, também, as maiores vítimas do desemprego e da falta de perspectivas. 

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