Desemprego estável é “positivo” ,dizem analistas

O mercado de trabalho continuou frágil no trimestre encerrado em abril, quando foi mantida a taxa de desemprego recorde alcançada em março, de 14,7%. A ausência de piora adicional em meio ao momento mais agudo da segunda onda da pandemia e ao aumento no número de pessoas em busca de trabalho foi apontado como fator “positivo” por analistas. A taxa de desemprego deve seguir pressionada pelo movimento de trabalhadores que estão saindo da inatividade para o mercado de trabalho e pelo lenta criação de vagas, mas os economistas não veem piora do quadro devido ao avanço da vacinação e à recuperação da economia, ainda que gradual.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o país tinha 14,76 milhões de desempregados no trimestre até abril e população ocupada de 85,94 milhões de pessoas, estabilidade estatística em relação ao trimestre encerrado em janeiro. Na comparação com igual período do ano passado, contudo, o número de desocupados é 1,95 milhão maior. “Os dados de abril ainda trazem informações de fevereiro e março. E o que se vê é que a segunda onda de covid-19 não foi tão negativa para o mercado de trabalho como a primeira. O fato de não ter havido queda na ocupação já é uma sinalização positiva, embora ainda muito tímida”, diz o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Rodolpho Tobler.

Ainda assim, a chamada mão de obra subutilizada ou desperdiçada atingiu o recorde de 33,25 milhões de pessoas, número que junta desempregados, desalentados – que não buscam ocupação, mas gostariam de trabalhar – e aqueles que trabalham menos horas do que gostariam. Livre de efeitos sazonais, houve aumento na taxa de desemprego, de 13,8% para 14,1% de março para abril, anota Lisandra Barbero, economista do Banco Original. A força de trabalho aumentou 0,7%, acima do 0,3% do crescimento da ocupação, na mesma base de comparação. Mas o aumento da ocupação gerou crescimento de 1% na massa de rendimentos, na série dessazonalizada, o que para ela é positivo, assim como o incremento do trabalho em segmentos como alojamento e alimentação e serviço doméstico, muito afetados pela pandemia. “Alguns dados da Pnad reforçam essa sinalização de que não houve necessariamente uma piora do mercado”, diz.

Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, estima que a desocupação deve ceder nos próximos meses, acompanhando a retomada gradual da economia e o avanço da vacinação. “As duas últimas leituras da Pnad Contínua mostraram o pico do desemprego”, diz, sobre o recorde de 14,7%. Essa redução, contudo, deve ser lenta e, na média do ano, a taxa ainda deve ficar em 14,1%, acima dos 13,5% em 2020. Em certa medida, pondera, a magnitude da taxa de desemprego vai depender do número de pessoas que voltarão ao mercado nos próximos meses. No trimestre encerrado em abril, a força de trabalho estava 1,35 milhão de pessoas abaixo de igual período de 2020.

A recuperação da ocupação deve se dar via trabalho informal, que tem menor produtividade e renda mais baixa, diz Tobler. O trabalho por conta própria, com ou sem CNPJ, deve ganhar espaço. O contingente deste grupo já avançou 2,3% no trimestre encerrado em abril, frente ao terminado em janeiro, para 24,04 milhões, diferença de 537 mil pessoas. Na comparação com igual trimestre de 2020, a alta foi de 2,8%, após quatro recuos seguidos. “O trabalho por conta própria não depende de abertura de vagas, mas de uma iniciativa individual, muito puxada pela necessidade”, observa. Para ele, pelos próximos meses, a taxa de desemprego vai se manter em patamar elevado e o mercado de trabalho fragilizado, a despeito da perspectiva de melhora no cenário por causa do avanço da vacinação. “A taxa de desemprego vai continuar pressionada. Mesmo que se espere mais geração de vagas. À medida que mais trabalhadores vão conseguindo se recolocar, mais gente vai voltar a buscar trabalho”, diz. A perspectiva de melhora, no entanto, alerta ele, ainda tem riscos, atrelados à evolução da pandemia no país.

VALOR ECONÔMICO