Criação forte de vagas reforça sinais de recuperação sólida

A surpresa positiva com o desempenho do emprego formal em maio reforçou, entre analistas, a percepção de retomada sólida da atividade no Brasil e a possibilidade de o ano fechar com 2 milhões de novas vagas com carteira assinada. Também indicou, porém, a estreita relação que alguns setores ainda guardam com o “abre e fecha” da economia. Pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o país gerou 281 mil postos registrados em maio, vindo de 177 mil em março e 116,4 mil em abril, meses mais afetados pela piora da pandemia e maiores restrições sociais. O número de maio ficou bem acima da previsão mediana de 150 mil colhida pelo Valor Data.

Com ajustes sazonais, a XP estima que a passagem foi de 96 mil postos em abril para 237 mil em maio, enquanto a LCA Consultores vê evolução de 25,8 mil para 277,4 mil. “Na divulgação passada, houve surpresa baixista. Agora, foi uma baita surpresa positiva. É mais um sinal de recuperação firme da economia depois da segunda onda”, diz Rodolfo Margato, economista da XP. O saldo de maio está associado a políticas de isolamento mais curtas, combinadas a menor adesão popular, adaptação de negócios e consumidores às novas condições de oferta e demanda impostas pela pandemia, além da rápida recuperação global, com efeitos positivos na atividade doméstica, lista Lucas Assis, economista da Tendências Consultoria. É por isso que, embora todos os setores tenham demonstrado números bons na avaliação dos analistas, o impulso maior no mês veio daqueles mais sensíveis ao afrouxamento de restrições sociais, como os serviços.

Chamou a atenção também que o resultado de maio é explicado mais pelo crescimento das contratações do que pelo controle nas demissões. Segundo o ministério, admissões subiram 11,5% ante abril (de cerca de 1,4 milhão para 1,6 milhão) e desligamentos caíram 0,3% (de 1,271 milhão para 1,268 milhão). Com ajustes sazonais, a XP indica alta de 22,3% nas contratações e de 1,7% nas demissões; a LCA estima 21,5% e 2,2%, na ordem. Bruno Imaizumi, economista da consultoria, pondera, no entanto, que a forte alta das admissões em maio pode ser pontual, compensando contratações adiadas em março e abril por causa da piora da pandemia.

No caso dos desligamentos, ainda que eles tenham avançado em maio, o patamar está próximo do pré-covid (1,27 milhão), observa Margato, da XP. Os analistas atribuem isso a medidas para preservar o emprego formal, como o BEm, para redução ou suspensão de jornadas. “Em maio, segundo novas estimativas incluindo os efeitos da nova edição calculadas pelo Ministério da Economia em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 3,5 milhões de empregados tinham alguma garantia provisória de emprego, o que representa uma parcela significativa de um pouco mais de 8% do estoque de trabalhadores formais no país”, aponta a LCA.

Imaizumi destaca que os novos contratos no BEm foram, majoritariamente, de pequenas e médias empresas, provavelmente mais afetadas pela segunda onda do que as grandes. De abril a junho deste ano, 70,5% dos acordos envolviam companhias com faturamento inferior a R$ 4,8 milhões, contra 53,9% no ano passado (abril a dezembro). Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, concorda que o Caged de maio indica boa recuperação do mercado formal, mas o banco tem preferido acompanhar seu indicador proprietário de emprego desde que mudanças metodológicas no Caged e adaptações à pandemia da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, ampliaram a discrepância entre os dados. O emprego formal na PnadC, ajustado pelo IDAT-Emprego, do Itaú, já aponta recuperação, em maio, do nível pré-covid, ainda sem superação, observa Barbosa. No Caged dos próximos meses, os números devem continuar sólidos, com junho a agosto “talvez parecidos com maio”, diz Margato. A LCA estima 175 mil novos postos em junho. Para 2021, a XP projeta saldo positivo de 1,8 milhão de vagas formais, mas o número tem viés de alta. A LCA e a Tendências já elevaram suas projeções desse patamar para 2 milhões.

Fatores de risco para o cenário incluem, segundo os economistas, ainda a crise sanitária, com eventual impacto de novas variantes, o ritmo lento da vacinação e o racionamento de energia. “Não é nosso cenário-base, mas monitoramos”, diz Margato. Além disso, a expectativa é que a geração de vagas com carteira, no curto prazo, siga associada ao perfil setorial da atual recuperação econômica, que torna ramos da indústria e segmentos do comércio mais resistentes a riscos, enquanto serviços prestados às famílias ainda sentem o ambiente de incertezas, observa Assis.

VALOR ECONÔMICO