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Cresce o número de executivas que vão trabalhar no exterior

A executiva da Gerdau Bárbara Dinalli tem vivido praticamente em outro mundo nos últimos meses ao se adaptar como expatriada nos Estados Unidos. Ela, aos 34 anos, e o marido já estão vacinados e o filho de três anos consegue frequentar a escola. A vida fora de casa existe: eles vão a restaurantes, fazem passeios usuais do cenário pré-pandemia e, se quiserem, podem andar pelas ruas de Tampa, na Flórida, sem máscaras. Em novembro, a executiva que lidera a estratégia global de remuneração e performance da Gerdau e coordenou a inserção de metas ESG nos bônus dos executivos decidiu levar adiante sua expatriação, que havia sido adiada com o início da pandemia. “Eu tinha medo de colocar minha família em risco, mas em 2020 meu marido pegou covid, minha mãe também, eles se recuperaram e eu percebi que a crise não teria fim tão cedo. Além disso, a expatriação virtual começou a ganhar espaço e eu não queria que a minha fosse assim. Queria viver a experiência cultural completa. Como já tinha o visto para todos, decidi arriscar.”

A pandemia não arrefeceu um movimento que já ocorre de forma acelerada ao menos desde 2018: o de o Brasil “exportar” executivas. A consultoria Hayman-Woodward diz que, entre 2,3 mil casos de expatriação em média por ano, houve um aumento de mais de 30% na proporção de mulheres expatriadas de 2018 a 2020. O aumento se mantém do ano passado a este e atualmente 53% dos clientes da consultoria são mulheres como principais peticionárias dos vistos, segundo Leonardo Freitas, CEO da Hayman-Woodward. Elas possuem, em média, de 37 a 47 anos, e vão de profissionais liberais a executivas. Estão em busca, principalmente, de novas oportunidades pessoais e experiências culturais. Na pandemia, porém, novos fatores foram adicionados à expatriação. Bárbara precisou fazer uma quarentena com a família na República Dominicana e assumiu as funções de trabalho nos Estados Unidos, inicialmente, a partir de sua nova casa. Em breve, conseguirá ir ao escritório e conhecer pessoalmente seus colegas.

Rumo à África do Sul, com a vacinação mais lenta, a brasileira Juliana Hosken aguarda melhores definições, inclusive do seu processo de visto, para se mudar com o marido e os filhos. Ter, contudo, perspectivas novas – pessoais e profissionais – é uma fonte de ânimo e um “privilégio” para toda a família, diz. Nos últimos anos, a executiva liderou o marketing da Suvinil, marca de tintas da Basf, e neste mês assumiu remotamente como vice-presidente de toda operação da Basf na África. Ela acredita que a nova posição é, de certa forma, uma conciliação de conhecimentos que obteve na carreira em diversas empresas. Mas teve um momento que a marcou nessa ascensão. “Quando virei os 30 anos, vi que não dava para seguir o mesmo ritmo se quisesse ser mãe. E, então, fui para um instituto de economia circular onde pude conciliar a maternidade, aprendi a planejar melhor as viagens, gerenciar as horas e estar próxima da família. Percebi que, se a Juliana pessoal não está bem, nada no trabalho anda.” O movimento de agora é, portanto, também fruto dessa visão e, para Juliana, uma oportunidade para toda a família em termos de experiência, adaptação e conhecimento. O marido, aliás, já avisou a empresa que irá sair e, como agrônomo, buscará uma recolocação na África do Sul.

Freitas, da Hayman-Woodward, avalia que as mulheres geralmente tendem a fazer o movimento de expatriação conciliando com a maternidade desde o princípio, enquanto há muitos homens que vão sozinhos antes para a adaptação e depois levam a família. Vanessa Cordaro, que assumiu em agosto a área de RH da AstraZeneca para oito países na Europa, diz que sua mudança para a Suíça, embora tenha se concretizado em três meses a partir da proposta da viagem, foi construída com seu marido e filhos ao longo de anos. “A decisão de uma carreira internacional vem antes da oportunidade”, diz. No seu caso, chegou na pandemia, em parte porque a AstraZeneca manteve o programa de desenvolvimento e mobilidade de talentos, mas também por conta do que construiu liderando o RH da empresa no Brasil. “Pesou para conseguir a vaga os projetos que desenvolvi de inclusão e diversidade, de requalificação da força de trabalho com novas competências digitais e de agilidade e maior autonomia na cultura organizacional.”

Na Suíça, ela agora tem o desafio de expandir esse legado para times multiculturais e tradicionalmente mais hierárquicos. “Tenho exercitado muito a escuta ativa para aprender diferenças culturais e questões mais técnicas como o funcionamento do sistema de saúde, mas sem esquecer que o meu diferencial é trazer um olhar diferente, criativo e que desafia as formas de trabalho.” Do lado pessoal, Vanessa define a adaptação em quatro fases. Houve uma lua de mel, quando tudo era novidade e empolgação. Mesmo durante o lockdown, os filhos puderam frequentar a escola, o que ajudou na adaptação e no aprendizado do alemão. Houve a crise, onde foi preciso lidar com as suas emoções e as da família. A retomada, onde novidades já estavam absorvidas e, agora, o ajustamento. “Percebi que é preciso olhar a mudança, o país e a cultura com curiosidade e não com resistência ao novo, entendendo que muitas coisas são apenas diferentes do que imaginávamos.”

A história de expatriação de Maria Luiza Peri, para ser líder de negócios e RH da área de cacau e chocolate da América do Norte da Cargill, começou diferente. Ela está no “ajustamento” da posição que assumiu em janeiro. Como os processos de vistos no consulado americano estão atrasados, ela não tem previsão para sair do Brasil – a entrevista, por exemplo, foi agendada para dezembro deste ano. Mas sua rotina já está no fuso horário de Minnesota – o que exige malabarismos para lidar com os filhos em aulas virtuais. “A flexibilidade de trabalho da empresa tem sido fundamental para eu me adaptar.” Para gerenciar os novos times remotamente, ela pediu mentoria a uma par mexicana, que entende mais dos pormenores do negócio local, e tem feito conversas frequentes com um de seus novos chefes para entender processos ou um possível “viés latino” sobre determinada situação. “Eu faço muito mais perguntas do que faria se estivesse no escritório e pudesse capturar, no ambiente, o que certos comportamentos denotam.”

O desejo de conhecer uma cultura internacional impulsionou Maria Luiza, em vários momentos da carreira, a deixar claro que gostaria de ser expatriada. Ela vê, hoje, que a experiência com diferentes unidades de negócios, tocando operações de construção de fábricas e de reestruturação em crises, e respondendo a chefes de várias partes do mundo foi fundamental. Enquanto não viaja e mostra a neve a seus filhos (um argumento que tem usado para convencê-los de que a mudança será positiva), Maria Luiza recorre aos livros para entender Minnesota. “É um lugar com uma cultura tão única que até muito americano não entende direito. Estou saindo completamente da minha zona de conforto.” Uma curiosidade relatada pelas executivas que foram expatriadas é a percepção, de quem fica no Brasil, ou de quem as recebe para fechar um aluguel ou um seguro no novo país, de que são seus maridos que estão liderando o movimento de mudança. “Eu até comentei com uma consultoria que meu marido não havia sido inserido no clube de coexpatriados (parceiros) e ela me disse que é porque só havia mulher até então”, diz Bárbara, da Gerdau.

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