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Covid piora mercado de trabalho para menos escolarizados


Grupo é o único que não retomou os mesmos níveis de emprego dos primeiros meses de 2020

Por Marsílea Gombata — De São Paulo

Trabalhadores menos escolarizados estão com mais dificuldade para retornar ao mercado de trabalho, depois do choque da covid-19. O número de pessoas ocupadas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto ainda está abaixo do nível pré-pandemia, apesar da recuperação do emprego neste ano, segundo levantamento feito por Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

A perspectiva é que a retomada dos setores de comércio e serviços ajude a inclusão da mão de obra menos instruída, mas com salários mais baixos. Outro cenário possível é o reajuste do Auxílio Brasil adiar a reinserção desses trabalhadores no mercado, prevê Janaína.

No levantamento feito a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) Contínua trimestral, os economistas lembram que no primeiro trimestre de 2022, quase dois anos após o início da crise sanitária, o mercado de trabalho brasileiro conseguiu voltar ao patamar anterior à pandemia. Mas a quantidade de trabalhadores com baixa escolaridade ainda não havia retornado ao nível reportado em 2020, segundo o levantamento, publicado no Boletim Macro, do FGV Ibre.

No fim do primeiro trimestre de 2022, o número de menos escolarizados trabalhando era de 20,14 milhões, ante 21,25 milhões no primeiro trimestre de 2020, 5,2% abaixo do nível pré-pandemia. O grupo é o único que não retornou aos patamares do início de 2020. Todos os outros – com ensino fundamental completo, médio completo ou superior completo – recuperaram as perdas decorrentes do choque da covid-19. O percentual de pessoas com menor nível de instrução ocupadas é ainda mais baixo no Sudeste, onde população economicamente ativa é maior.

O desemprego no Brasil no primeiro trimestre de 2020, quando a pandemia chegou ao país, era de 12,4% da população economicamente ativa, segundo a Pnad Contínua. No primeiro trimestre deste ano, chegou a 11,1%, mesmo nível do trimestre final de 2019.

“O que observamos é que na recuperação da pandemia, a partir do segundo semestre de 2021, a atividade econômica vinha puxando a recuperação do mercado de trabalho, mas inicialmente em setores relacionados à indústria, que requerem pessoas mais qualificadas”, afirma Janaína.

“Somente no fim de 2021 e no início de 2022 é que houve aceleração na atividade relacionada a serviços e comércio. Então esses trabalhadores, que conseguem estar alocados em atividades que não exigem alto nível de qualificação, começaram a retornar ao mercado, mas em um patamar ainda abaixo do nível pré-pandemia.”

Mariana Almeida, economista e superintendente da Fundação Tide Setúbal, argumenta que a pandemia reorganizou a estrutura do trabalho, aumentando a distância entre os mais instruídos e os menos. “Foi um choque que acelerou a digitalização. Muitos serviços que não eram prestados de maneira digital agora são. Com isso, é esperado que os menos escolarizados e que têm menor acesso à tecnologia no trabalho tenham mais dificuldade de retomar”, diz.

A crise também acirrou a concorrência no mercado de trabalho, argumenta Ana Tereza Santos, da consultoria IDados. “Temos uma taxa de desemprego muito alta, o que faz a escolaridade ser um fator decisivo na hora de competir por uma vaga”, diz. “Então um emprego que antes era ocupado por alguém sem escolaridade, agora está sendo pleiteado também por quem tem maior instrução.”

O levantamento do Ibre mostra que o número de trabalhadores ocupados com ensino superior passou de 19,9 milhões no primeiro trimestre de 2020 para 21,3 milhões no primeiro deste ano.

“Desde o último ano, a recuperação heterogênea dos serviços concentrou-se em setores mais intensivos em mão de obra qualificada, como administração pública e informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, limitando a geração de empregos para os menos escolarizados, como em setores de alimentação e serviços domésticos”, diz Lucas Assis, da Tendências Consultoria.

Os números do segundo trimestre devem ser divulgados no fim de agosto pelo IBGE. Mas dados recentes da Pnad Contínua de divulgação mensal indicam expansão de postos de trabalho em serviços e comércio e também os voltados para seguimentos de serviços domésticos, o que reforça a expectativa de retorno dos menos escolarizados para o mercado de trabalho.

“Essa população com menor nível educacional deve conseguir retomar o patamar pré-pandemia, em termos de ocupação”, diz Janaína. “Mas, como são setores caracterizados por baixa produtividade, serão ofertados salários menores.”

Outra incógnita, observa a economista, é em relação ao reajuste do valor do Auxílio Brasil para R$ 600, aprovado recentemente. “A grande dúvida é se esse pacote para estender o Auxílio Brasil pode segurar as pessoas em casa e dificultar o retorno delas ao mercado, principalmente aquelas com menor nível educacional, que costumam ter mais dificuldade para conseguir emprego”, questiona.

No levantamento, Janaína e Peruchetti argumentam que, apesar de os indicadores mostrarem que o mercado de trabalhado já conseguiu atingir os patamares pré-pandemia de população ocupada e de taxa de desemprego, muitos ainda se questionam sobre a qualidade dessa recuperação.

“Essa preocupação tem ressurgido por conta da expansão de trabalhadores atuando no setor informal, caracterizado por ser desprovido de proteção social, e que, por estarem em ocupações que demandam menos escolaridade, recebem menores rendimentos”, afirmam. Soma-se a isso um cenário de inflação alta e persistente, que dificilmente cederá antes de meados do ano que vem.

Assis projeta para o segundo semestre de 2022 uma ampliação da população desocupada, apesar da expectativa de recuperação dos serviços prestados às famílias e crescimento das vagas de menor qualificação. Ele atribui a isso impactos defasados do aperto monetário em curso e das incertezas políticas internas, e o encerramento definitivo do Programa BEm, de apoio ao emprego formal.

Uma retomada sustentada do emprego dos menos escolarizados dificilmente ocorrerá sem maior crescimento econômico e geração de emprego, alerta Ana. “Se ficarmos estáveis no patamar atual, esse quadro tende a continuar, porque precisamos de criação de vagas e aumento da demanda em todos os níveis para incluir os trabalhadores menos qualificados”, conclui.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/07/26/covid-piora-mercado-de-trabalho-para-menos-escolarizados.ghtml