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Brasil tem desafios ‘assustadores’, diz ‘Economist’

Pela terceira vez em quase 12 anos o Cristo Redentor aparece em destaque na revista inglesa “The Economist”, desta vez com uma máscara ligada a um tubo de oxigênio. A imagem está na capa de relatório especial sobre o Brasil, sob a manchete “Na beira” [On the brink]. Na capa da revista, o título é “Brasil: década sombria” [Dismal decade], Com dez páginas, o relatório publicado ontem diz que o Brasil enfrenta a maior crise desde o retorno à democracia, em 1985. O texto responsabiliza o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pela crise atual e diz que é prioridade do país se livrar dele nas próximas eleições, em 2022.

Os desafios atuais do país, diz a revista, são assustadores, vão desde a estagnação econômica, polarização política, ruína ambiental, regressão social até o pesadelo com a covid-19. E o país, indica o relatório, suporta um presidente que está minando o próprio governo. “Seus comparsas substituíram funcionários de carreira. Seus decretos têm forçado freios e contrapesos em todos os lugares”, diz o texto assinado por Sarah Maslin.

Mais quatro anos no comando de Bolsonaro, diz o texto, podem devastar a Amazônia onde grande parte da floresta pode se transformar em savana seca. Bolsonaro, indica a revista, prefere perder um acordo comercial com a União Europeia do que mudar sua política ambiental. Antes da pandemia, o Brasil estava sofrendo numa década com problemas políticos e econômicos. Com Bolsonaro como seu médico, afirma o texto, agora está em coma. A revista reúne vários números. Mais de 87 mil brasileiros morreram por covid-19 em abril, a pior taxa de mortalidade mensal do mundo no período, indica. As vacinas são tão escassas que as pessoas com menos de 60 anos não as tomarão até setembro. E um recorde de 14,4% dos trabalhadores estão desempregados. Ainda assim, diz o texto, depois de explicitar que o presidente é antivacina, no dia 1º de maio, bolsonaristas envoltos em bandeiras brasileiras tomaram as ruas, que aplaudiram a recusa do presidente em usar uma máscara, seu apoio à hidroxicloroquina e seu desejo de enviar o exército para obstruir as medidas de isolamento social.

O relatório da “The Economist” fala da influência dos militares no governo atual. “Os generais que se juntaram ao seu governo esperavam fazer avançar a agenda do Exército. Em vez disso, prejudicam sua reputação. Eles foram cúmplices na administração incorreta da pandemia por Bolsonaro, que levou a dezenas de milhares de mortes desnecessárias. Eles não conseguiram fazê-lo assinar contratos para aquisição de vacinas ou impedi-lo de cumprimentar apoiadores quando pegou covid-19, no ano passado”, diz a revista. O relatório faz críticas duras. Diz que “sob [o ex-ministro Eduardo] Pazuello, o ministério da saúde parecia uma boca de fumo [a revista cita o termo em português] para hidroxicloroquina”. O Exército pode descobrir, diz o texto, que tem de escolher entre a democracia e o Bolsonaro. Outras instituições brasileiras sobreviveram aos seus ataques, no entanto sua resistência, diz a revista, pode se assemelhar a um jogo de “whack-a-mole”, referindo-se ao brinquedo do bate-martelo, em que se acerta cabeças que vão surgindo.

Na última parte do relatório, intitulada “É hora de partir”, a revista diz que pesquisas sugerem que Lula [Luiz Inácio Lula da Silva] venceria um segundo turno nas próximas eleições. Mas, à medida que a vacinação e a economia se recuperam, o presidente pode voltar a ganhar terreno. Em 31 de março, aniversário do golpe militar de 1964, seis potenciais adversários a Bolsonaro assinaram um manifesto dizendo que a democracia estava “sob ameaça”, relata a revista. Salvá-la, exigirá mais do que manifestos, sentencia o texto. Os políticos precisam enfrentar as reformas econômicas atrasadas, diz. E empresas, ONGs e brasileiros comuns devem protestar em favor da Amazônia e da Constituição Federal. “Mas será difícil mudar o curso do Brasil enquanto Bolsonaro é o presidente. A prioridade mais urgente é se livrar dele”, conclui.

É a terceira vez em que o Cristo Redentor é exibido com destaque na “The Economist”. Na primeira, vez apareceu em alusão positiva ao país, rumo ao céu como um foguete, em capa de novembro de 2009, quando o Brasil estava “prestes a decolar” [Brazil takes off]. Em setembro de 2013, porém, o monumento voltou a aparecer na capa da revista, mas já sob outro tom, em queda após rodopios no ar, sob o título “O Brasil estragou tudo?” [Has Brazil blown it?]. Na época a publicação destacou que, depois de crescer 7,5% em 2010, o país cresceu só 0,9% em 2012.

VALOR EOCNÔMICO