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Brasil está entre os 10 países com mais dificuldade para preencher vagas de emprego, aponta pesquisa

Índice de escassez de talentos no país superou média global, atingindo 81% neste ano.

Por Marta Cavallini, g1

Uma pesquisa mostra que o Brasil superou a média global de escassez de profissionais e atingiu o índice de 81% neste ano – 10 pontos percentuais a mais que o relatado por empregadores no ano passado e o maior desde o início da pesquisa, em 2010.

No mundo, o índice de escassez global de talentos atingiu 75% – o maior nível em 20 anos, início da série histórica do levantamento. O dado representa um aumento de 6 pontos percentuais em relação a 2021 e é quase o dobro do relatado em 2015.

A pesquisa foi feita pelo ManpowerGroup, consultoria de soluções de recursos humanos, com mais de 40 mil empregadores em 40 países e territórios.

“A escassez de talentos é um dos maiores gargalos das organizações que desejam prosperar. Em um cenário de avanço digital, as competências humanas ganham cada vez mais destaque, pois são elas que impulsionam os negócios”, comenta Wilma dal Col, diretora de gestão estratégica de pessoas no ManpowerGroup.

O Brasil ficou na 9ª posição no ranking dos 10 países em que o desafio para preencher vagas é mais elevado. Veja abaixo:

Taiwan: 88%
Portugal: 85%
Singapura: 84%
China: 83%
Hong Kong: 83%
Índia: 83%
Romênia: 82%
Austrália: 81%
Brasil: 81%
Espanha: 80%
Média global: 75%

Por setores e portes de empresas

A pesquisa mostra ainda a escassez de profissionais por porte de empresa e segmentos que mais demandam talentos e os que encontram maior dificuldade no Brasil.

Por porte de empresa, o estudo mostra que há pouca variação no desafio de preencher vagas. As de grande porte precisam se esforçar um pouco menos que as demais, mas também registram um alto índice de escassez, de 80%. Já nas micro, que são as que enfrentam mais dificuldade, o índice é de 85%.

Micro: 85%
Pequena: 81%
Média: 84%
Grande: 80%

Os cinco segmentos em que há mais demanda por talentos são:

Tecnologia da Informação & Dados (40%)
Atendimento ao Cliente & Front Office (32%)
Logística & Operações (23%)
Marketing & Vendas (21%)
Administração & Apoio ao Escritório (21%)

Já os setores que mais registram dificuldade em encontrar talentos são:

Banco & Finanças (86%)
TI & Tecnologia (84%)
Indústria (84%)
Educação, Saúde & Governo (80%)
Atacado & Varejo (79%)
Construção (76%)
Hotelaria & Restaurantes (66%)

“Para minimizar os impactos da escassez, é essencial a adoção de estratégias inteligentes, com valorização do capital humano e voltadas para a reciclagem de conhecimentos, baseada na formação constante e ininterrupta. Essa é a chave principal para driblar esse desafio e enfrentar o dinamismo da realidade de trabalho atual”, diz Wilma.

Soft skills

As competências humanas ganham destaque mesmo na era digital. Os empregadores citaram quais as soft skills necessárias e que estão escassas. Veja o ranking em ordem decrescente no Brasil e no mundo.

Pesquisa mostra paradoxo com desemprego elevado

Questionada sobre o índice de escassez ser tão alto em meio a um desemprego também elevado no Brasil, Wilma dal Col reconhece que a pesquisa não traz os motivos para esses dados, que se revelam um paradoxo em relação à realidade do mercado de trabalho.

No entanto, segundo ela, as soft skills têm influência relevante na escolha de um candidato e na manutenção dele no emprego, principalmente no que se refere à dificuldade para encontrar pessoas com foco em resolução de problemas.

De acordo com ela, há dificuldades em fechar posições mais específicas e tecnológicas.

“Muito do trabalho que era feito por pessoas foi substituído por uma aceleração de resultados por meio de softwares, equipamentos e máquinas. Mas a tecnologia ainda não substitui o relacionamento humano. Você pode abrir o seu aplicativo para resolver todas as suas questões bancárias, mas se tiver um problema ou uma grande dúvida, não vai querer falar com o chatbot ou com a inteligência artificial, mas com outra pessoa”, observa.

Isso significa, segundo ela, que o avanço tecnológico e a especialização estão requerendo o melhor do ser humano, que tem que trazer a força da habilidade humana e das soft skills para poder compor um trabalho de qualidade.

“A tecnologia sozinha, talvez, traga algum resultado, mas composta pela capacidade do ser humano de fazer as coisas de forma diferente, relacional, colaborativa, solucionadora de problemas e criativa, possivelmente, é um diferencial”.

Wilma aponta ainda a existência de candidatos mais exigentes, com escolhas individuais para a vida pessoal e profissional.

“Hoje a carreira está muito mais na mão do profissional do que das empresas e, talvez, exista uma necessidade de aprendizado de ambas as partes. Atualmente, os profissionais buscam mais qualidade de vida, flexibilidade de jornada, independência para atuação e novos modelos de trabalho. E é nesse momento que as organizações perdem talentos ou bons candidatos”, explica.

Wilma aponta que, enquanto as organizações passam por transformações devido a todos os avanços tecnológicos e, ao mesmo tempo, por uma necessidade cada vez maior das habilidades humanas dentro dos processos, os profissionais estão fazendo escolhas com mais autonomia e independência.

“Acredito que esse paradoxo que estamos vivendo é um fato. Temos 11% de taxa de desemprego e 81% das empresas falando que enfrentam dificuldades para preencher vagas. Esse paradoxo precisa levar a uma conversa madura e responsável sobre o que está acontecendo e como podemos lidar com essa situação. Além de trazer pessoas e organizações para uma reflexão sobre isso.”