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Automação ameaça mais emprego de menos qualificado

Valor Econômico – 16/02/2022 –

Quanto menor a qualificação e a renda de uma ocupação, maior é o risco de ela desaparecer por causa da automação. Estudo apresentado pela consultoria IDados na “Live do Valor ” de ontem mostra que, no mercado de trabalho brasileiro, as perdas de empregos ocupados por pessoas com ensino superior serão de 28%, enquanto chegarão a 66,4% no caso daqueles exercidos por pessoas com ensino fundamental.

A diferença também é grande quando se compara por faixa de renda, mostra o estudo. O impacto será de 23% nas ocupações com renda acima de cinco salários mínimos, mas chegará a 64% naquelas com rendimento abaixo de um salário mínimo.

“Quem tem menor qualificação tem risco muito maior de ver o emprego substituído por máquinas que aqueles com maior qualificação. E isso se reflete também entre aqueles com menor renda, que também está correlacionada com educação”, afirmou o economista Bruno Ottoni, pesquisador líder da IDados e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), esclarecendo que isso está ligado à necessidade de qualificação, não necessariamente de ensino superior.

Um dos caminhos para avançar em qualificação além da universidade, citou Ottoni, é o do ensino profissionalizante, que ganhou força agora com a entrada em vigor do novo currículo do ensino médio. A grande questão, diz ele, é que trabalhadores com mais capital humano, seja pela dimensão da instrução formal, seja pela experiência profissional, terão mais capacidade de se adaptar às mudanças trazidas pela automação.

“Às vezes uma pessoa com ensino médio técnico, mas com muita experiência e com um técnico muito demandado pelo mercado de trabalho, como a TI, estaria mais imune a ter seu emprego substituído por máquinas. É só para ilustrar um pouco como o capital humano no fim das contas está relacionado com os efeitos de longo prazo que já estão atingindo o mundo e o Brasil e devem se aprofundar.”

Na avaliação do psicólogo e doutor em educação João Batista Oliveira, que também participou da live, essa necessidade de avanço ainda mais intenso do capital humano devido à automação torna ainda mais importante a necessidade de se repensar as políticas de educação no país, principalmente diante do agravamento da situação de formação de crianças e jovens trazida pela pandemia.

Também presidente do Instituto Alfa e Beto, que trabalha com políticas educacionais e projetos de consultoria e material didático, Oliveira defende um debate mais intenso para se definir a estratégia para recuperar o conhecimento prejudicado ao longo da pandemia e critica a falta de liderança do Ministério da Educação neste tema. Para ele, é preciso um diagnóstico claro da situação dos alunos e não se pode acreditar que será possível compensar o que se perdeu na pandemia com “uma hora de reposição”.

“Falta competência e entendimento por parte do governo. Infelizmente o MEC não assume liderança, as secretarias estaduais muitas vezes não estão equipadas, e até o setor, as ONGs e universidades não falam essas coisas com clareza. Perdemos dois anos, é impossível recuperar em meio ano. Base é base, não dá para acelerar.”

Embora acredite que a melhor estratégia para garantir que não houve perda para os alunos seria admitir um prazo maior para a sua preparação no pós-pandemia, diz não ver espaço para isso, por conta de uma “ânsia política”. “Não estou enxergando essa paciência para diagnosticar e começar de onde precisar. É muita pressa. Vai ser um desafio gigantesco.”