Por Vander Morales – Presidente do Sindeprestem e da Fenaserhtt
Um fenômeno está acontecendo diante dos nossos olhos. O mundo do trabalho está mudando, e talvez o Brasil ainda não tenha entendido a dimensão dessa transformação. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que por décadas foi símbolo de segurança e ascensão social, já não ocupa o mesmo lugar no imaginário da juventude. Isso não é narrativa ideológica. É dado.
Pesquisa recente do Datafolha mostra que 59% dos brasileiros com mais de 16 anos preferem trabalhar por conta própria, contra 39% que preferem emprego com carteira assinada. Entre os jovens, 68% preferem autonomia. Desde 2022, caiu de 77% para 67% o número de pessoas que aceitariam um contrato CLT mesmo com rendimento menor, enquanto cresceu de 21% para 31% a parcela que considera mais importante ganhar mais do que ser registrado.
A carteira de trabalho deixou de ser unanimidade. Para muitos jovens, virou meme. Para muitos jovens, virou meme. “CLT premium”, “salário-mínimo + esforço mínimo”, “se tudo der errado, viro CLT”. O tom pode ser irônico, mas a mensagem é séria. Não se trata de rejeição ao emprego formal. Trata-se de questionamento sobre a atratividade do modelo atual.
Os números ajudam a explicar essa percepção. Estudo do professor José Pastore aponta que os encargos trabalhistas pagos pelas empresas chegam a 103,7% do valor dos salários. Isso significa que o empregador paga mais em encargos do que paga diretamente ao trabalhador.
Quando analisamos apenas impostos e contribuições sociais sobre a folha, o Brasil cobra 25,8% sobre os salários, ficando entre os países que mais oneram a contratação formal. Tributamos emprego como país rico, mas com produtividade e renda média muito inferiores.
O resultado é claro: o trabalhador recebe menos do que poderia e o empregador paga mais do que deveria. A formalização se torna onerosa, os reajustes ficam comprimidos e a geração de empregos perde dinamismo.
É nesse ponto que o debate precisa avançar.
A jornada legal no Brasil já é definida em lei, e sua organização atende às necessidades operacionais de diferentes setores da economia. O desafio não está na carga horária em si, mas na estrutura de custos e na rigidez normativa que encarecem a contratação e reduzem a capacidade de adaptação das empresas às novas dinâmicas do mercado.
A discussão central, portanto, não deve ser sobre redução de jornada ou ruptura de modelos consolidados, mas sobre como tornar o emprego formal mais competitivo, sustentável e atrativo tanto para quem emprega quanto para quem trabalha.
Defender a modernização das relações de trabalho não é defender a retirada de direitos. É defender eficiência. É reconhecer que proteção social e competitividade precisam caminhar juntas.
O Brasil precisa reduzir a oneração sobre a folha, simplificar obrigações acessórias, estimular qualificação e permitir maior previsibilidade jurídica. Precisa criar um ambiente onde contratar formalmente seja viável e onde o trabalhador perceba vantagem real na formalização.
A pergunta não é se a CLT vai acabar. A pergunta é se vamos conseguir atualizá-la para que continue sendo instrumento de proteção e, ao mesmo tempo, de desenvolvimento.
Porque ninguém constrói um país forte com empresas excessivamente oneradas e empregos cada vez menos atrativos. Modernizar é preservar — não enfraquecer.