Após alimentos e combustíveis, energia e serviços são ameaças inflacionárias

A escalada mais recente da inflação no Brasil é resultado, em grande parte, da pandemia de covid-19. Em primeiro lugar, a reaceleração de algumas das maiores economias ainda em 2020, principalmente a chinesa, elevou a demanda pelas commodities (produtos básicos) agrícolas brasileiras. Isso se traduziu na alta dos preços dos alimentos no mercado interno.

Um segundo fator está ligado à elevação dos preços do petróleo no mercado internacional, que afetou o custo dos combustíveis no Brasil. O preço da gasolina encerrou 2020 praticamente estável, mas em 2021 até maio já subiu 24,7%. O gás de botijão – item importante para o orçamento das classes mais baixas – subiu 9,2% no ano passado e 14,25% este ano.

Outro fator que contribuiu para a inflação foi o dólar. A moeda americana à vista se manteve em níveis superiores a R$ 5,50 durante boa parte do ano passado e deste ano, a despeito de o Brasil estar recebendo mais dólares em função da exportação de commodities.

Por trás disso estão as preocupações com o futuro da economia brasileira e com a sustentabilidade do déficit orçamentário do País. Como muitos produtos consumidos no Brasil são influenciados pelo câmbio, o dólar mais alto ajudou a sustentar a inflação. Somente recentemente a moeda americana perdeu força ante o real e se reaproximou dos R$ 5.

“Quando a pandemia veio, havia o temor de que os gastos (para fazer frente ao coronavírus) se tornassem permanentes. Houve uma desconfiança em relação à política fiscal que gerou alta do dólar, combinada ao aumento nos preços das commodities”, resume o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Ronaldo Souza Junior.

Mais recentemente, dois novos fatores entraram no radar do governo: o custo da energia elétrica e a inflação de serviços. No primeiro caso, a seca que atinge a região das hidrelétricas tende a elevar os preços da energia, como forma de compensar os gastos extras que o País terá com a produção das termoelétricas. Em 2020, a energia elétrica residencial ficou 9,14% mais cara. Em 2021 até maio, há uma baixa de 0,53%, mas a tendência é de elevação nos próximos meses.

“O mercado coloca no cenário de inflação diversos riscos e um deles é a questão energética”, explica o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano. Desde junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mantém acionada a bandeira vermelha patamar 2 no sistema elétrico – os brasileiros estão pagando R$ 6,24 a mais por cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos.

Para piorar, estão em discussão na agência reguladora novos valores para as bandeiras tarifárias. Pela proposta apresentada em março, no patamar 2, o mais caro do sistema, o reajuste pode chegar a 21%, passando para R$ 7,57 a cada 100 kWh. “O risco é de termos mais inflação, e não menos”, alertou Serrano.

Outro fator que ganhará importância nos próximos meses é o custo dos serviços. O Banco Central já vem alertando que, em países onde a vacinação está mais avançada, surgiu uma “euforia de consumo” entre a população. Nos Estados Unidos, por exemplo, as pessoas passaram a alugar mais automóveis, a reservar mais hotéis e a comprar mais passagens aéreas. “Acreditamos que esta euforia da reabertura vai acontecer no Brasil também”, disse no início do mês o presidente do BC, Roberto Campos Neto, durante evento virtual do JP Morgan.

Todo este conjunto de fatores fez as projeções de inflação para 2021 e também 2022 subirem nos últimos meses. O Relatório de Mercado Focus – que compila os cálculos do mercado financeiro – indica atualmente que a inflação terminará 2021 em 5,82%, bem acima da meta de 3,75% perseguida pelo BC. A projeção para 2022 está em 3,78%, também acima da meta de 3,50%.

Para evitar um descontrole inflacionário, o BC vem elevando os juros desde março deste ano. Na semana passada, a autarquia promoveu o terceiro aumento consecutivo de 0,75 ponto porcentual da Selic (a taxa básica da economia), para 4,25% ao ano. Os economistas do mercado financeiro esperam que, até o fim de 2021, a Selic chegue a 6,25% ao ano.

O ESTADO DE S. PAULO