Alta do comércio mostra sinal positivo para 2º tri

O crescimento de 1,8% do comércio em abril, frente ao março – que veio bem acima do esperado pelo mercado – já abriu a possibilidade de um desempenho melhor que o previsto inicialmente para a atividade econômica no segundo trimestre do ano. A taxa foi a maior desde 2000 para um mês de abril da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e também a alta mais intensa desde agosto de 2020 (2,4%).

Os dados do varejo na passagem entre março e abril mostram expansão espalhada, em seis das oito atividades – com destaque para móveis e eletrônicos e tecidos, vestuário e calçados, que sozinhos responderam por 2,8 pontos percentuais da variação de 1,8%. Ainda com cautela, economistas apontam que os números de abril podem sinalizar um comportamento mais positivo do Produto Interno Bruto (PIB) entre abril e junho, embora ressaltem que é preciso aguardar os demais indicadores, especialmente a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), que o IBGE divulga na sexta-feira. O único recuo em abril ocorreu no setor de supermercados, que caiu 1,7% após alta de 3,3% em março. A flexibilização das medidas de isolamento social, a retomada da confiança do consumidor e do auxílio emergencial – ainda que em valor menor e com influência negativa da inflação – ajudaram na expansão mais expressiva do varejo em abril.

Coordenador da sondagem do comércio do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), Rodolpho Tobler ressalta que os indicadores de confiança e de mobilidade já mostram dados positivos, o que cria expectativa de continuidade de melhora de desempenho até maio e junho, embora ainda dependendo da pandemia. “Este é o primeiro indicativo de que o segundo trimestre pode ser um pouco mais forte que o esperado, mas ainda é um primeiro dado de abril. A produção industrial não veio no mesmo ritmo do varejo e também acho que vale pena esperar esta semana o resultado dos serviços. O setor tem um peso maior no PIB e [a pesquisa de abril] realmente vai mostrar se o setor também conseguiu ser mais resiliente às medidas restritivas ou não”, diz Tobler. A possibilidade de um segundo trimestre mais positivo também é considerada pelo economista-chefe da corretora Ativa, Étore Sanchez. Para ele, os dados divulgados reforçam a relativa “insensibilidade econômica” às medidas de isolamento social baixadas para frear a pandemia.

O resultado abre espaço, segundo ele, para nova revisão de PIB para 2021, que passa a ter perspectiva de alta de 4,5%, a ser confirmada dependendo do setor de serviços. “É necessário pontuar que a relativa insensibilidade econômica dos dados às restrições de mobilidade remove potencial de crescimento do segundo semestre”, diz. O resultado de 1,8% de abril do varejo veio muito acima da estimativa mediana de recuo de 0,1% pelo Valor Data, embora as projeções fossem dispersas (de queda de 3,5% a alta de 2,5%). Já as vendas do varejo ampliado – que incluem veículos e motos, partes e peças, e material de construção – subiram 3,8% na passagem entre março e abril, mais perto da mediana do Valor Data, que era de 3,5%. Frente a abril de 2020, o varejo restrito teve alta de 23,8% e o ampliado, 41%, em função da base de comparação depreciada do ano passado.

A alta de abril na série com ajuste sazonal se segue a um período de altos e baixos do varejo desde o início do ano, comportamento classificado como “claudicante” pelo gerente da pesquisa do IBGE, Cristiano Santos. Na série frente ao mês imediatamente anterior, com ajuste sazonal, o varejo recuou 0,1% em janeiro, subiu 0,7% em fevereiro, caiu 1,1% em março e agora teve alta de 1,8% em abril. Com o desempenho daquele mês, o varejo voltou a ficar acima do nível pré-pandemia, com patamar 1% superior ao de fevereiro de 2020. “O varejo vem de meses mais fortes e outros mais fracos. O cenário é muito incerto, com demora na vacinação e lentidão nos programas de apoio”, afirma a economista da Tendências Consultoria Isabela Tavares. “A expectativa é de crescimento, mas o segundo trimestre ainda deve ser volátil. Só no segundo semestre teremos desempenho mais consistente, com avanço na vacinação”.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou ontem também a produção de veículos em maio, que segue em recuperação. As montadoras instaladas no país fabricaram 192,8 mil unidades, ante as 3,9 mil montadas em maio de 2020, mês de operações paralisadas por causa da pandemia. Quando se compara a igual mês de 2019, no entanto, o volume produzido está 40 mil veículos abaixo. No acumulado de 2021, a produção chegou a 981,5 mil unidades, uma alta de 55,6%. “É o melhor maio desde 2019 e tivemos uma boa média diária, de 9 mil veículos. […] Mas ainda estamos abaixo do verificado em 2019, que foi de, em média 11 mil por dia”, disse o presidente da Anfavea, Luiz Carlos de Moraes.

VALOR ECONÔMICO