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A pandemia, a economia e o mercado de trabalho (João Saboia)

A divulgação dos resultados das Contas Nacionais do IBGE do primeiro trimestre do ano trouxe a informação de que o nível da atividade econômica voltou ao patamar do último trimestre de 2019, ou seja, do último antes do início da pandemia. O retorno ao nível anterior não foi uniforme. A agropecuária, que foi poupada ao longo de todo ano de 2020, no início de 2021 estava 5,8% acima do final de 2019. Com relação à indústria e aos serviços, houve crescimento de 1,9% e queda de 1,9%, respectivamente. Olhando o PIB pelo lado da demanda, o consumo das famílias caiu 3,1%, o consumo do governo, 4,9%, enquanto a formação bruta do capital cresceu impressionantes 19,3%, representando o maior nível da série desde o início de 2015.

Conforme é amplamente sabido, em tempos normais o mercado de trabalho segue a evolução da atividade econômica, embora com um pequeno atraso. Isso vale tanto em períodos de melhora quanto de piora. Em 2014, por exemplo, a economia já vinha mostrando sinais recessivos desde o início do ano. Isso não impediu que a população ocupada crescesse a ponto de se obter no final de 2014 a menor taxa de desemprego de toda a série da Pnad Contínua. A comparação dos dados da economia e do mercado de trabalho entre o último trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2021 confirma as dificuldades enfrentadas atualmente pelo mercado de trabalho, apesar do retorno da economia à situação anterior à pandemia. Mostra também que, dependendo da evolução da economia nos próximos meses, tais dificuldades poderão durar muito tempo e sua recuperação será bem mais lenta do que a recuperação econômica [1].

Segundo os dados da Pnad Contínua, entre o último trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2021, a população ocupada caiu 9,5%, o número de desocupados cresceu 27,6%, a população subocupada por insuficiência de horas trabalhadas aumentou 3,5%, a população desalentada subiu 29,2%, a força de trabalho potencial (desalentados + não desalentados) cresceu 47,0%, e o total da população subutilizada (desocupados + subocupados por insuficiência de horas trabalhadas + força de trabalho potencial) aumentou 26,9%. (ver tabela). No início de 2021 havia 33,2 milhões de pessoas subutilizadas no mercado de trabalho no Brasil! Esses números deixam claro que, embora a economia tenha voltado aos níveis pré-pandemia, o mercado de trabalho encontra-se atualmente muito pior do que estava antes da crise de 2020.

Alguns dados adicionais ajudam a entender as atuais dificuldades do mercado de trabalho. Se separarmos as pessoas ocupadas em formais e informais, verifica-se que os dois segmentos sofreram muito durante a pandemia. Os formais caíram de 55,1 para 51,5 milhões (queda de 6,7%). Os informais, de 39,4 para 34,2 milhões (queda de 13,1%). Ou seja, a crise atingiu proporcionalmente muito mais os informais (empregados sem carteira, empregadores e trabalhadores por conta própria não contribuintes para a previdência e trabalhadores familiares) do que os formais (empregados com carteira, funcionários públicos, empregadores e trabalhadores por conta própria contribuintes). Com isso, houve queda da taxa de informalidade, o que parece paradoxal em tempos de crise. Essa é, inclusive, uma das razões para a performance relativamente favorável do rendimento médio do conjunto de ocupados ao longo da crise, uma vez que o rendimento dos mais atingidos (informais) é bem inferior ao dos menos atingidos (formais). A segunda razão é a própria evolução mais favorável do rendimento dos formais comparativamente aos informais.

Portanto, a recuperação do mercado de trabalho não depende apenas de melhoria das expectativas de empresários sobre a economia para decidirem pela contratação de novos empregados com carteira assinada. É preciso também que as condições sanitárias permitam o retorno dos mais de 5 milhões de informais que se retiraram da força de trabalho durante a pandemia. É aqui que entra a questão da imunização da população contra a covid 19. Apesar do aumento do ritmo da vacinação no país, ele ainda se encontra muito lento. A falta de contratação de vacinas em 2020 acabou resultando em atraso da imunização da população e em seu início muito lento. Grande parte dos mais jovens, que constituem importante parcela da força de trabalho, ainda não tomou a primeira dose da vacina. Se tudo correr bem, só no último trimestre do ano teremos o grosso da população vacinada. Mesmo que a economia continue a melhorar ao longo de 2021, o país deverá continuar apresentando sérias dificuldades no mercado de trabalho nos próximos meses. Por um lado, o crescimento da agricultura e da formação bruta do capital até aqui observado gera relativamente poucos empregos. Enquanto o setor de serviços não se recuperar não haverá recuperação do nível de emprego. Por outro lado, houve forte crescimento da produtividade do trabalho durante a pandemia que dificilmente será revertido, dificultando anda mais a recuperação do mercado de trabalho.

De certa forma, pode-se afirmar que, em termos de mercado de trabalho, 2021 já pode ser considerado um ano perdido e que o retorno a algo semelhante ao que ocorria no final de 2019 ainda levará muito tempo. E o mais irônico nisso tudo é que 2019 não foi nada brilhante em termos de mercado de trabalho, que ainda sofria os efeitos da crise de 2015/2016 e do pouco crescimento da economia em 2017/2019. [1]. A comparação entre o quarto trimestre de um ano e o primeiro trimestre de outro ano pode apresentar alguma dificuldade por conta da sazonalidade existente ao longo do ano. No caso do PIB estamos utilizando dados dessazonalizados. No caso da Pnad Contínua são utilizados os dados originais divulgados pelo IBGE sem correção sazonal. Como os dados do mercado de trabalho costumam ser mais favoráveis no último trimestre de cada ano, a comparação aqui realizada pode estar sendo um pouco desfavorável ao mercado de trabalho.

João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ).

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