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  • 29/10/2018 | Nas três carreiras mais procuradas, homens ganham até 23% mais que mulheres - O Globo

29/10/2018 | Nas três carreiras mais procuradas, homens ganham até 23% mais que mulheres - O Globo

Apesar de estarem cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e serem maioria no ensino superior, as mulheres ganham menos nas três carreiras que mais formam e melhor pagam no país: direito, medicina e engenharia civil. Isso reflete tanto o fato de as mulheres acumularem trabalho e tarefas domésticas quanto diferenças na regulamentação salarial dessas carreitas, apontam especialistas.

Um levantamento da consultoria iDados mostra que, no caso do direito, a desigualdade de gênero está aumentando. As mulheres são maioria nas formaturas (57%) e já representam 49% desses profissionais no mercado. No entanto, o salário médio dos homens com esta formação é 23% superior ao das mulheres, incluindo profissionais que atuam no Judiciário. Essa diferença mais do que dobrou na última década. Em 2007, a vantagem masculina era de apenas 10%, mostra a pesquisa, que cruzou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua) do IBGE, da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e do Censo da Educação Superior.

Nos outros dois cursos avaliados, a desigualdade de gênero caiu nos últimos dez anos, mas ainda é um desafio para as mulheres. Na engenharia civil, os homens recebiam 21% mais que as mulheres. Em 2017 essa diferença caiu para 15%. Na medicina a desigualdade é menor. Há dez anos os médicos tinham rendimento 8% superior ao das médicas e, em 2017, essa diferença recuou para 5%. Em ambas as profissões, nesse período, a parcela de mulheres entre os formandos aumentou, enquanto a de homens caiu.

Segundo Thais Barcellos, pesquisadora do iDados, ainda que haja barreiras comuns, diferenças na regulamentação salarial e no plano de carreira dessas três profissões explicam, em parte, a maior discrepância entre esses salários:

— Ao contrário do direito, medicina e engenharia civil têm regulações mais bem definidas em relação ao piso salarial. Além disso, há uma hierarquização maior no direito. Você pode ser desde um advogado até ministro do Supremo, o que provoca um abismo entre os salários porque as mulheres são minoria nos cargos mais altos.

Apesar de os concursos públicos para cargos no Judiciário funcionarem como uma vacina para a discriminação de gênero, Renata Gil, presidente em exercício da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), lembra que a maior parte dos profissionais do direito está no setor privado e isso contribui para a desigualdade salarial:

— Temos 1 milhão de advogados inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a maior parte em escritórios e empresas, e somente 18 mil juízes, funcionários públicos. No setor privado o problema é maior. A maioria das mulheres ocupa cargos inferiores e ganha menos que os homens na mesma função, diferentemente do setor público, onde os salários são equiparados.

Segundo Renata, as mulheres já são 44% dos juízes substitutos, primeiro degrau da carreira da magistratura, mas são poucas na cúpula do Judiciário. Elas ficam com apenas 16% das posições nos tribunais superiores. Entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), maior salário do serviço público, há apenas duas mulheres: Cármen Lúcia e Rosa Weber.

A dificuldade de conciliar vida pessoal e carreira, devido ao acúmulo de tarefas familiares pelas mulheres, e também o sistema de indicações políticas para os cargos mais altos, geralmente de homens, também contribuem para aumentar essa desigualdade, diz Renata.

O advogado e professor de equiparação salarial do departamento de Direito da USP Estêvão Mallet acrescenta que, entre os advogados no setor privado, a desigualdade salarial também está relacionada à predominância masculina no direito há até pouco tempo. Os advogados mais experientes, sócios das principais bancas, são homens. Além disso, eles tendem a serem mais atraídos para o direito penal, que tem remuneração maior que a área de família, que tradicionalmente concentra mulheres.

Apesar de a política de piso salarial favorecer a redução da desigualdade de remuneração na engenharia, Ana Adalgisa Paulino, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) do Rio Grande do Norte, observa que isso só ajuda as mulheres nos postos iniciais da carreira.

— Conforme há progressão na carreira, as mulheres ganham menos que os homens mesmo com a mesma qualificação — reclama Ana Adalgisa, que dirige uma das quatro unidades estaduais do Crea presididas por mulheres, entre os 27 do

Na medicina, a desigualdade tem razões semelhantes. Segundo Ligia Bahia, diretora da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, há mais mulheres ocupadas em especialidades que remuneram menos, como as cognitivas, enquanto há mais homens no ramo cirúrgico, que paga mais. Por conta do acúmulo de tarefas domésticas e com os filhos, as mulheres também tendem a dispensar plantões, que aumentam a renda consideravelmente por serem um ganho

— No setor público os salários são melhor equiparados — diz Ligia.

Desde 1992 a participação feminina no ensino superior brasileiro é maior do que a masculina, quando considerados os jovens de 18 a 24 anos, período em que deveriam estar na universidade. A parcela de mulheres dessa faixa etária na faculdade, nos últimos 25 anos, saltou de 4,9% para 21,7%, enquanto que, entre os homens, passou de 4,2% para 16,6%.

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