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23/10/2019 | O futuro do trabalho e o trabalhador do futuro (Robson Braga de Andrade) - O Globo

A vertiginosa revolução tecnológica que o mundo experimenta, em que ambientes virtuais disputam a proeminência com a realidade física, impõe uma nova forma de enxergar o mundo do trabalho. Diante desse cenário, são muitas as adaptações necessárias para que empresas e trabalhadores sejam bem-sucedidos. Independentemente do que vier a acontecer no futuro próximo, um aspecto parece inquestionável: é preciso se preparar para um aprendizado contínuo.

Duas grandes tendências nos alertam para os desafios que teremos no Brasil nesse campo. A primeira diz respeito ao fim do bônus demográfico, com a redução do número de trabalhadores que entram no mercado em relação aos que o deixam. A segunda está na crescente automatização e na digitalização do sistema produtivo, que aumenta a busca por profissionais capazes de lidar com a dinâmica de uma economia cada vez mais atrelada à tecnologia.

Trabalhadores mais qualificados são capazes de utilizar e interpretar as novas tecnologias, antecipar tendências, e propor produtos inovadores e processos mais eficientes. O problema é que as mudanças ocorrem a uma velocidade superior à capacidade de preparar profissionais para os desafios atuais. Na prática, isso significa que as novas tecnologias demandam habilidades específicas que não são ensinadas no sistema de ensino tradicional. Por isso, mais do que nunca, tornou-se necessário investir em cursos de qualificação técnica.

Estudo do Fórum Econômico Mundial mostra que, em grandes empresas, quase metade dos empregados precisa passar por algum treinamento todos os anos, seja no próprio ambiente de trabalho, seja em instituições privadas que oferecem serviços de educação profissional. No Brasil, apesar do alto desemprego, 34% dos empregadores reportam dificuldades em selecionar pessoas adequadas para as vagas abertas. Eles dizem não encontrar candidatos com as habilidades requeridas para os cargos, segundo dados do ManpowerGroup.

De acordo com projeções do Mapa do Trabalho Industrial, lançado no mês passado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), somente no setor industrial brasileiro, 1,6 milhão de empregados precisarão passar por aperfeiçoamento profissional, anualmente, até 2023. Essa necessidade se dá em virtude das mudanças provocadas pela chamada Indústria 4.0 e da pressão pelo aumento da produtividade e da competitividade.

O cenário é desafiador, mas repleto de oportunidades. A demanda por trabalho mais qualificado tende a aumentar, com profissões mais analíticas, interativas e não rotineiras ficando em evidência. Com máquinas assumindo cada vez mais funções humanas, o diferencial do trabalhador talhado para o futuro incidirá sobre competências como pesquisar, avaliar, planejar, elaborar regras e prescrições, interpretar, negociar, coordenar, organizar e ensinar.

Com objetivo de jogar luz sobre esse tema, a CNI realiza, nesta quinta-feira — no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro —, o Seminário “Pelo Futuro do Trabalho”, em parceria com as principais centrais de trabalhadores do país. Especialistas e líderes vão debater as abruptas transformações ocorridas nos sistemas produtivos e analisar suas implicações. Uma coisa é certa: em um mundo cada vez mais disruptivo, governo, empresários e trabalhadores precisam se unir para fazer frente ao desafio de promover uma contínua e eficaz qualificação da mão de obra, fator indispensável para o crescimento sustentado da economia.

Como ensina Richard Branson, fundador do Virgin Group e um dos mais visionários empreendedores do nosso tempo: “Capacite bem os seus colaboradores para que eles possam partir. Trate-os bem para que eles prefiram ficar”. É basicamente o mesmo ensinamento proclamado, no século passado, pelo lendário Henry Ford: “Só há uma coisa pior do que formar colaboradores e eles partirem. É não os formar e eles permanecerem”.

Robson Braga de Andrade é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

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