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09/05/2019 | Transparência radical nos salários pode valer a pena - Valor Econômico

Revelar seu salário para um colega é um dos "atos mais subversivos" que um trabalhador pode cometer, afirma Melanie Simms, professora de trabalho e emprego da Adam Smith Business School, da Universidade de Glasgow.

As organizações se esforçam "muito" para tornar a remuneração pouco transparente, diz ela. "Elas sabem que nem sempre podem justificar as diferenças. É interesse delas, enquanto empregadoras, não serem abertas em relação a essas coisas." Esse sigilo coloca os trabalhadores em grande desvantagem na negociação dos salários, segundo Alison Grenn, consultora por trás do site "Ask a Manager", que compilou um banco de dados anônimo sobre remuneração. "Também torna muito mais difícil revelar disparidades salariais por gênero ou raça."

No passado, a professora Simms já revelou o quanto ganhava para colegas, embora admita que precisasse tomar coragem para isso em um bar. "Quase toda conversa que envolve um número de quanto você vale tem um preço. Pode ser uma coisa perturbadora, pois você acha que seus colegas vão te julgar." O salário há muito é considerado um assunto tabu em muitas partes do mundo. Conforme coloca Kim Scott, que já trabalhou no Google e na Apple e é autora do livro "Radical Candor": "Nos comportamos em relação ao dinheiro da mesma maneira que os vitorianos se comportavam em relação ao sexo". A tecnologia e a legislação estão mudando as atitudes em relação ao sigilo sobre os salários. Na ponta mais extrema, algumas empresas abraçaram a transparência radical - disponibilizando para todos os salários de todos. Será que esse poderá ser o futuro? 

As redes sociais tornaram o que é privado público, e sites como o Glassdoor e o Salary Expert ajudam os trabalhadores a encontrar informações sobre remuneração. Ao mesmo tempo, a legislação colocou a remuneração sob escrutínio público. Nos EUA e no Reino Unido, empresas de capital aberto são obrigadas a publicar a relação de pagamento entre as médias dos principais executivos e as dos trabalhadores. A prestação de contas sobre as disparidades salariais entre os gêneros foi introduzida no Reino Unido e na França. Uma nova lei alemã permite às mulheres pedirem informações sobre o salário médio de um grupo de pelo menos seis homens com ocupações parecidas com as delas, e vice-versa. A divulgação de informações sobre os salários pode provocar insatisfação e ressentimento - especialmente na rede estatal de TV britânica BBC. Em 2017, a BBC revelou que dois terços de seus funcionários mais bem remunerados eram homens.

No ano seguinte, Carrie Gracie pediu demissão do cargo de editora de China, escrevendo em uma carta aberta que a companhia estava "violando a lei de igualdade e resistindo às pressões por uma estrutura de remuneração mais justa a transparente". Em resposta às queixas, em março a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos lançou uma investigação sobre a desigualdade de remuneração na rede de TV. A BBC admitiu a existência de casos no passado, mas análises independentes posteriores "não encontraram problemas sistêmicos de discriminação salarial". A empresa afirma que está fazendo "melhorias nas estruturas de remuneração". Um funcionário da BBC diz que a controvérsia sobre os salários encorajou alguns homens a abrir seus níveis salariais para as mulheres, para que elas possam descobrir se estão sendo mal pagas. "Isso pode ser muito útil.

O gênio saiu da garrafa. Acreditamos que a transparência é válida nos processos judiciais e no caso das despesas dos parlamentares. Precisamos nos preparar melhor para nos abrirmos uns com os outros sobre o que ganhamos." Sam Smethers, presidente-executivo da Fawcett Society, uma instituição que defende a igualdade de gêneros, afirma que perguntar a um colega o quanto ele ganha pode ser um passo "importante" para revelar a discriminação pela remuneração. Não é uma tarefa fácil. Uma pesquisa feita pela Fawcett Society no ano passado constatou que 53% das mulheres trabalhadoras ficam desconfortáveis em relevar seus salários a um (a) colega. No entanto, quando elas acreditam que há discriminação, 62% das mulheres e 57% dos homens disseram que revelariam seus salários.

A transparência exercer um certo controle sobre os empregadores. Um estudo publicado em 2015 concluiu, de maneira otimista, que a transparência organizacional sobre a remuneração "pode ajudar também a reduzir as desigualdades de gênero e raciais no local de trabalho". Em alguns casos, ser aberto pode eliminar a paranoia de funcionários que suspeitam de desigualdades salariais. Mulheres descobrem que recebem salários justos, enquanto homens descobrem que ganham mal. Saber que um colega ganha mais do que você pode ser desmoralizante e desencadear a busca por um novo emprego, mas o oposto também vale para o seu gerente. Descobrir que o chefe ganha mais pode motivar um funcionário a se esforçar mais.

É o que afirmam pesquisadores da Anderson School of Management da UCLA e da Harvard Business School, que analisaram 2.000 funcionários de um banco. Embora pedir demissão para buscar um salário melhor possa ser uma coisa racional, alguns afirmam que a maioria dos trabalhadores fica desiludida em relação às suas habilidades e valor. O professor Todd Zenger, autor do livro "Beyond Competitive Advantage", afirma em um artigo que "a remuneração amplamente difundida simplesmente lembra à grande maioria dos funcionários, quase todos com uma autopercepção exagerada de seus desempenhos, de que seus salários atuais estão muito abaixo de onde eles acham que deveriam estar".

Até mesmo os defensores da transparência radical dos salários não veem isso como uma panaceia. Paulina Sygulska Tenner, cofundadora da GrantTree, que ajuda empresas de tecnologia a conseguir financiamentos públicos, revela todos os salários internamente desde o começo. Ela vem tendo "seus desafios". A transparência dos salários, continua ela, precisa ser parte de uma cultura aberta. Na sua empresa, os funcionários também podem acessar informações corporativas como a contabilidade e os orçamentos departamentais. "Minha sócia e eu queríamos criar um lugar em que quisessemos trabalhar. Passamos aos funcionários a mensagem que confiamos neles", afirma Tenner.

Dois anos atrás, elas introduziram um novo plano de remuneração em que os funcionários pesquisam e estabelecem seus próprios salários. Ao longo de vários meses eles recolhem informações sobre sua remuneração, com base no nível de aptidão, desempenho e valor de mercado. Eles então recebem um "feedback" de suas propostas para depois tomar uma decisão final. A transparência na remuneração, acredita ela, impede fofocas sobre os salários ao lado da máquina de café. Algumas pessoas tiveram redução no salário ao mudarem de função. Uma funcionária deixou de ser gerente sênior de clientes para ir para a área de marketing e diz que foi razoável reduzir seu salário, embora ele não tenha sido reduzido ao nível júnior, sob a premissa de que a empresa estava economizando os custos de recrutar e treinar um novo profissional.

Para serem transparentes em relação aos salários, afirma Tenner, os funcionários precisam ter uma boa cultura financeira. "Se as pessoas não conseguem entender isso, não podemos esperar que elas tomem boas decisões." Essa conclusão encontra respaldo em Hans Christian Holte, diretor da administração tributária da Noruega, país geralmente visto como um exemplo de transparência porque torna públicas e acessíveis as devoluções de imposto de renda de seus cidadãos. A cultura financeira, diz ele, é "uma grande questão". Quando os patrões consideram a transparência, eles precisam ser claros sobre as funções de trabalho e justificativas para as diferenças de remuneração e recompensas. Charles Cotton, consultor sênior de desempenho e recompensas do Chartered Institute of Personnel and Development, diz: "Isso força uma organização a pensar sobre a razão e o valor que está concedendo como gratificação".

Essas diretrizes terão de ser atualizadas periodicamente - aptidões que antes eram bastante procuradas passam a não ser mais; os trabalhos mudam. Um especialista em remuneração diz que pedir a uma grande empresa estabelecida que abra subitamente sua folha de pagamentos é uma coisa desorientadora. Ele compara isso a um cônjuge de um casamento monogâmico propondo ao outro um casamento aberto. Tenner sugere que grandes empresas que consideram a transparência deveriam começar aos poucos - talvez com um único departamento. Ruben Kostucki é diretor de operações da Makers Academy, uma companhia de treinamento de desenvolvedores de softwares que possui 50 funcionários e adotou a transparência na remuneração desde sua fundação em 2013.

Ele diz que é muito mais fácil ser uma empresa pequena e nova que pode "assumir riscos". Ele acredita que a transparência na remuneração deixa mais claro para os funcionários quais são seus objetivos. Embora a transparência "provavelmente seja mais justa, as pessoas não deveriam achar que ela é uma solução mágica. Não estamos tentando deixar todos felizes, e sim sendo honestos e abertos com os funcionários". "Não colocamos os salários de todo mundo no quadro branco todos os dias. Eles simplesmente estão acessíveis. A maioria das pessoas não se importa. Temos coisas melhores para fazer."

 

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