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22/05/2017 | Cenários voláteis - O Estado de S.Paulo

Por Cida Damasco

 

Temer fica, pelo menos por enquanto. A equipe econômica também. Temer sai logo. A equipe econômica fica. Temer e equipe econômica vão embora. Especialistas de plantão iniciam a semana debruçados sobre esses cenários básicos e suas implicações no comportamento da economia daqui para a frente. Afinal, o mundo da economia tem sua própria lógica.

 

Mercados, agências de risco e setores empresariais olham para os indicadores econômicos com lentes que nem sempre coincidem com as dos cidadãos comuns. Enquanto as atenções e especulações da maioria da população dirigem-se para novas revelações da delação dos irmãos Batista, para as palavras e o silêncio de Temer na tal conversa com o empresário, para a suposta manipulação das gravações e para a arbitragem do Supremo na contenda Planalto versus PGR, no universo da economia o sonho de consumo é, antes de tudo, uma solução rápida, que preserve a equipe econômica e a sua política. Principalmente, as reformas constitucionais.

 

Daí, a pergunta que se faz nesta segunda-feira, quatro dias após o início do terremoto JBS, é se dá para garantir essas premissas. E a resposta é não. Renúncia, ou cassação de mandato, ou processo de impeachment ou permanência de Temer – balançando sob o impacto das investigações e das ameaças de esfarelamento da base partidária –, tudo continua em pauta. De certo, agora, só uma coisa: incerteza. E incerteza que pode se arrastar ainda por um bom tempo. Um ciclo nada virtuoso, em que a volatilidade dos cenários políticos se reflete em volatilidade dos mercados e, por tabela, da economia real. Em outros momentos de tensão política, mesmo de menor voltagem , o efeito principal sobre a economia foi exatamente de volatilidade. Fortes oscilações nos mercados, até se atingir uma certa acomodação – ainda que em níveis bem inferiores aos do início da crise. Mais ou menos como um jogo de tabuleiro, em que um dos participantes é obrigado a voltar várias casas e recomeçar a disputa, em situação bem mais frágil.

 

Na quinta-feira, a Bovespa sacudiu e fechou com baixa de 8,8% – seguida por alta de 1,7% no dia seguinte – e o valor de mercado das empresas sangrou em algo como R$ 220 bilhões. O dólar deu um salto de quase 8% na quinta-feira, o maior em 18 anos, e um mergulho de quase 4% na sexta. Os riscos são ainda maiores, quando se leva em conta que, não bastasse o efeito Temer, há o efeito Trump – ele também sob risco de impeachment – conspirando contra os mercados internacionais.

Em relação à atividade econômica, os temores são parecidos. No meio dessa turbulência, espera-se que o Banco Central substitua agressividade por cautela – o que significa no mínimo queda mais modesta dos juros. E, como se sabe, é na derrubada dos juros que os empresários fazem fé para manter o processo de reativação da economia.

 

Investimento, quem vai pensar nisso agora? Nem os consumidores, que já relutavam em assumir dívidas, com medo principalmente do desemprego. Nem os empresários, muitos deles superendividados, que hesitavam em expandir seus negócios e muito menos os investidores estrangeiros, que mal começavam a examinar a conveniência de participar de leilões de concessão e/ou parcerias em obras de infraestrutura. Aqui também vale esclarecer que não se trata de uma virada de tendência.

 

Apesar de todo o esforço do governo para “encorpar” a retomada, a verdade é que a atividade econômica apontava mais para o fim da recessão do que para um crescimento firme e consistente. A trava política, portanto, viria para reforçar essas limitações.

 

Fechando o quadro, há a questão das reformas constitucionais, especialmente da Previdência e trabalhista – às quais se agarra o governo Temer, numa tentativa de se apresentar como fiador da agenda de modernização da economia. Estas, é claro, já estão paradas até segunda ordem e, para seguirem em frente, exigiriam muito mais. Mais tempo de negociação e, inevitável, mais verbas.

 

Temer vai se empenhar para que o Congresso comece a semana com a votação de medidas da pauta econômica, o que emitiria um sinal de que o País volta a funcionar mesmo antes de o STF se posicionar sobre a continuidade do inquérito contra ele. Pode ser até que consiga, mas o cancelamento do jantar de ontem com aliados, por risco de baixa adesão, mostra que o terremoto JBS ainda pode produzir muitos tremores secundários nas bases do governo.

 

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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