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06/09/2018 | Como somos educados para falhar na carreira - Valor Econômico

É interessante o fato de a profissão moderna de enfermeiro ter aparecido somente a 150 anos, apesar de a doença ser uma condição que sempre nos acompanhou. Cuidadores existiam até então, mas se restringiam aos familiares próximos, amigos, religiosos (freiras, por exemplo) ou, raramente, a voluntários.

Foi então que, no século 19, uma nobre britânica chamada Florence Nightingale se dedicou a cuidar de doentes, acreditando que uma boa educação e princípios científicos poderiam ajudar nessa recuperação. Sua atuação na guerra da Crimeia e consequente redução do número de mortes entre os soldados feridos, foi amplamente divulgada na sociedade britânica. No final do século 19, quase toda a sociedade ocidental adotava a ideia de Florence de ter enfermeiros capacitados em hospitais.

Pela previsão de especialistas, essa profissão ainda tem muito futuro. Empurrada pelo aumento da renda e por uma população que vive mais, se espera que enfermagem seja uma das profissões que mais crescerá no setor de saúde. Estima-se de 80 a 130 milhões novas posições até 2030, o que representa 2 a 4 vezes mais do que as relacionadas à area de tecnologia. Assim como na saúde, outras setores tradicionais também criarão mais postos do que a tecnologia, como o de varejo, construção e educação.

Todo o 'buzz' relacionado à tecnologia e ao futuro do trabalho criou a falsa percepção de que as posições na área serão predominantes no futuro. Elas são uma boa opção de carreira, estão crescendo e irão crescer, mas estão longe de serem predominantes no mercado de trabalho. Pensar dessa forma reduz a ansiedade, principalmente de pais que me perguntam se deveriam colocar os filhos em escolas de programação para prepará-los para a vida.

Pensar a carreira no futuro não será tão diferente do que deveria ser hoje. O mundo deverá ter muito trabalho, apesar dos prognósticos relativos à automação e à eliminação de posições. Antigas profissões continuarão a existir, várias vão sumir e outras aparecerão. Um lado positivo é que, em vez de menos teremos mais opções.

As possibilidades não são só em relação ao trabalho em si. O modelo de emprego que conhecemos ainda será predominante por muito tempo, como mostram recentes levantamentos estatísticos. Mas o trabalho do profissional autônomo qualificado, que já tem sido mais aceito por grandes corporações, assim como o trabalho temporário, deve crescer. Ambos se beneficiam das plataformas de negócio que conectam a oferta e a demanda por esses serviços.

Mas isso não significa que todos serão bem-sucedidos. Excluindo os modelos de gestão econômica ou sistemas políticos que excluem multidões de postos de trabalho, existem tendências que contribuem para aumentar esse risco. A tecnologia tem um papel fundamental nisso. A enfermagem evoluiu muito desde os tempos de Florence. Novas tecnologias permitirão que muitas das tarefas hoje realizadas por médicos sejam transferidas para enfermeiros e realizadas com eficácia mesmo longe de hospitais.

A maioria das profissões não estará na área de tecnologia, mas ela transformará praticamente todas as formas de trabalho. Assistentes digitais, inteligência artificial e sensores inteligentes mudarão a maneira como fazemos as tarefas, como aconteceu com o e-mail na década de 90.

O legal é que não será necessário aprender a programar para isso. Será preciso apenas o mínimo de curiosidade e criatividade para aplicar a tecnologia. E essas são habilidades que temos desde criança até que o sistema de educação nos condiciona a dar as respostas certas para nos sentirmos aceitos. Passamos então a viver sempre sob a ameaça de falharmos. Esse é o fardo que a maioria carrega em suas carreiras e que é reforçado pelas organizações.

Carreiras em sua maioria não são lineares, mas desenvolvidas ao longo do tempo, seja por nossas buscas pessoais ou por influência de fatores externos. O sucesso da transição do mundo do trabalho atual para o futuro requer mais do que capacitação. Ele exige um novo modelo mental para interagimos, que seja estimulado pela curiosidade e pela vontade de realizar. Características que devíamos ter à disposição, mas que somos condicionados como sociedade a esquecer.

Claudio Garcia é vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York

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