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09/07/2018 | É o emprego, estúpido - O Estado de S.Paulo

Artigo de Luís Eduardo Assis

Houve um tempo, não há muito, em que o pior parecia ter já passado. Na posse de Temer, em maio de 2016, predominava a sensação de que, abandonada a insânia da Nova Matriz Econômica, tudo melhoraria. De fato, vários indicadores econômicos avançaram e o mirrado crescimento do PIB de 1% no ano passado veio robustecer a esperança. O ministro Meirelles também foi tocado por este encantamento. Em setembro de 2017, embalado pela aprovação da reforma trabalhista, já se considerava um animal com asas e acreditava que a recuperação econômica seria forte o suficiente para mais do que compensar sua personalidade, digamos, pouco carismática. Antevendo sua candidatura, gravou um vídeo para um evento da Assembleia de Deus em que pedia orações pela economia e anunciava a meta de “fazer com que o País volte a ter emprego para todos”. No começo de 2018, o ministro foi além e entrou no terreno pantanoso das previsões: cravou o palpite de que 2,5 milhões de novos empregos seriam criados ainda neste ano. 

As estatísticas recentes divulgadas pelo IBGE e pelo Ministério do Trabalho mostram que não é bem assim. Enquanto vários indicadores de nível de atividade rastejam, mas avançam, os números do emprego nem sequer isto fazem. Em dois anos de governo Temer, a taxa de desocupação passou de 11,2% para 12,7%. O número de pessoas com mais de 14 anos desocupadas em maio último registrou 13,23 milhões, ante 11,44 milhões em maio de 2016. É bom lembrar que, na metodologia do IBGE, desocupados são pessoas que tomaram alguma providência efetiva para buscar trabalho (quem desistiu não conta). No mercado formal, com carteira assinada, o quadro não é menos funesto. O estoque de postos de trabalho, que tinha atingido 41,8 milhões em novembro de 2014, logo depois da reeleição da presidente Dilma, recuou para 39,26 milhões na posse de Temer e não passou de 38,25 milhões em maio último. Do ponto de vista setorial, a coisa pode ser ainda pior. A construção civil, por exemplo, fechou nada menos que 20% das vagas ocupadas nos últimos dois anos. Mesmo a agropecuária apresenta um desempenho pífio. No ano passado, o PIB deste setor cresceu nada menos que 13%, mas, ainda assim, o total de trabalhadores registrados recuou 1,3% desde a posse de Temer. 

Aqui há dois pontos a serem retidos. O primeiro é que a situação precária do emprego joga água no moinho de candidaturas que possam ser percebidas como “anti-establishment”. Para o eleitor, o debate poroso sobre a necessidade de reformas é vazio se não trouxer melhorias na sua vida cotidiana. A fome é má conselheira. “O abdômen é naturalmente amigo da ordem”, dizia Machado de Assis. “O estômago pode destruir um império, mas há de ser antes do jantar.” A segunda questão é estrutural. A recessão da qual ainda estamos nos desvencilhando não interrompeu o avanço tecnológico e seu impacto disruptivo sobre o mercado de trabalho. Ao contrário, a substituição de trabalho pouco qualificado por automação é mais intensa do que nunca. Isto coloca um outro ponto na pauta do debate econômico. Mesmo no cenário panglossiano em que o novo presidente queira e possa instituir reformas que acelerem o crescimento, o aumento da produção pode não gerar número proporcional de empregos. Vivemos hoje a confluência de uma crise conjuntural com a irrupção de um novo padrão de inserção no mercado de trabalho, que pune o trabalhador de baixa renda. O enfrentamento a este problema requer uma revolução no sistema educacional brasileiro, o que hoje pouco se discute. Negligenciar a questão da educação e do emprego é receita segura para construirmos uma sociedade ainda mais excludente e desigual. 

*É economista. Foi diretor de política monetária do Banco Central do Brasil e professor da PUC-SP e FGV-SP.

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