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23/06/2018 | A desidratação da indústria – O Estado de S.Paulo

A indústria vinha passando por um processo de desidratação que não é fenômeno exclusivo do Brasil. E, mais recentemente, passou a enfrentar uma impressionante onda de tecnologia digital que tende a alijar do mercado a indústria que não estiver equipada para lidar com ela.

Em todo o mundo, desde a década de 1980, a manufatura vem perdendo espaço para o setor de serviços. É o que acontece por aqui, mas, também, nos Estados Unidos, no Reino Unido e até mesmo na China, tantas vezes vista como a nova fábrica do mundo. 

No Brasil, nem mesmo as políticas de isenção fiscal e de estímulos ao consumo de bens industrializados, tampouco os generosos empréstimos e investimentos do BNDES durante os governos do PT conseguiram conter o encolhimento do setor. A participação no PIB até cresceu, de 14,5%, em 2002, para 17,8%, em 2004. Mas, dez anos depois, em 2014, quando Dilma Rousseff foi eleita para seu segundo mandato, o setor já correspondia a apenas 12,0% do PIB. Em 2017, contribuiu com ainda menos, 11,8% do PIB.

Com isso, o esperneio de empresários e de alguns economistas aumentou. A reação é, em parte, resultado da rarefação das bondades que o governo brasileiro sempre distribuiu à indústria. Ela cresceu por anos e anos sem enfrentar séria concorrência no mercado interno e, quando isso já não foi mais possível, foi privilegiada por políticas de isenção fiscal, empréstimos públicos a juros bem abaixo dos praticados pelas instituições privadas ou por desonerações nas folhas de pagamento.

Mas a participação da indústria de transformação brasileira na atividade econômica não se retrai apenas por falta de mimos. Há outras explicações para isso. Uma delas é a segmentação das atividades. Até 1980, por exemplo, entravam no PIB da indústria salários de recepcionistas, seguranças e faxineiros que trabalhavam nas fábricas. A partir de então, para reduzir custos, as empresas passaram a terceirizar funções não diretamente ligadas à atividade principal. A renda produzida por esses profissionais saiu da conta da indústria e engordou a dos serviços.

Outra razão é fenômeno analisado em outras edições por esta Coluna. A automação, a robotização e, mesmo, novos hábitos de consumo têm permitido a dispensa de pessoal pela manufatura. Trata-se de tecnologia altamente poupadora de mão de obra. Além disso, o mundo passou por movimento de internacionalização das cadeias produtivas. Países que pagavam salários mais altos perderam indústrias para países onde esse custo é mais baixo, em especial na Ásia. 

Não se podem ignorar, é claro, as dificuldades próprias do Brasil. O País é mau poupador e investe pouco, especialmente em infraestrutura. Para o economista Rafael Cagnin, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, esse comportamento é produzido por juros reais elevados demais no País e pelo complexo e custoso sistema tributário, fatores que tornaram a retração da indústria no PIB brasileiro especialmente precoce. “A indústria perde produtividade e competitividade ao longo do tempo. Há menos condições, tanto para agregar quanto para reter valor ao que produz.”

Renato Fragelli, professor da Escola de Economia da FGV do Rio de Janeiro, acrescenta outra razão: ausência de mão de obra qualificada. Por isso, prevê futuro pouco brilhante: “Não há poupança nem investimento em educação. Assim, a indústria não tem como deslanchar”. 

Enquanto a opção for apenas lamentar os privilégios que o governo não pode mais proporcionar, porque está bloqueado pelo rombo fiscal, a indústria brasileira tende a continuar a se apequenar. É que, além das razões acima apontadas, o mundo vive nova e impressionante revolução digital, diferentemente da anterior, com grande potencial disruptivo para a indústria que não se equipar para enfrentar a concorrência, a velha e a nova.

Para quem tiver sido alijado do mapa da produção não fará muita diferença se a eliminação for determinada por falta de política industrial ou se por falta de preparo para enfrentar os novos tempos. 

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