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20/02/2018 | O ‘apocalipse’ robô contra os empregos - O Estado de S. Paulo

O empreendedor Andrew Yang vê calamidade econômica à frente por causa da eliminação de milhões de empregos – Foto: Guerin Blask / The New York Times

Por Kevin Rose / The New York Times

Entre os muitos democratas que estarão em busca da indicação presidencial do partido em 2020, a maioria provavelmente concorda em um punhado de questões básicas, mas só um deles vai se concentrar no apocalipse do robô.

Esse candidato é Andrew Yang, um bem conectado empresário de Nova York, que está montando uma proposta de longo alcance para a Casa Branca. Yang, um ex-executivo de tecnologia que lançou a organização sem fins lucrativos, Venture for America, acredita que a automação e a inteligência artificial avançada tornarão milhões de empregos obsoletos em breve – o seu, o meu, os de nossos contadores e radiologistas e de caixas de supermercados. Ele diz que a América precisa adotar medidas radicais para evitar o desemprego no nível da Grande Depressão e uma crise social total, incluindo a entrega de trilhões de dólares em dinheiro.

“Tudo o que você precisa é de carros autônomos para desestabilizar a sociedade”, disse Yang, de 43 anos, durante o almoço em um restaurante tailandês em Manhattan no mês passado, em sua primeira entrevista a respeito de sua campanha.  “Ema penas alguns anos, teremos um milhão de motoristas de caminhão sem emprego. Entre eles, 94% são do sexo masculino, com um nível médio de educação do ensino médio ou um ano de faculdade.”

Para ele, essa única inovação, será suficiente para criar rebeliões na rua. “E estamos prestes a fazer o mesmo com os trabalhadores de varejo, trabalhadores de call centers, trabalhadores em empresas de fast-food, companhias de seguros, firmas de contabilidade.”

Alarmista?

Certo. Mas as profecias apocalípticas de Yang ecoam as preocupações de um número crescente de economistas trabalhistas e especialistas em tecnologia, preocupados com as próximas consequências econômicas da automação. Um relatório de 2017 da McKinsey & Co., firma de consultoria, concluiu que até 2030, cerca de um terço dos empregos dos EUA podem desaparecer devido à automação. (Outros estudos deram previsões mais otimistas, prevendo que novos empregos substituirão a maioria dos perdidos).

Talvez fosse inevitável que um cético em tecnologia tentasse aproveitar o momento. A vigilância sobre as empresas de tecnologia como o Facebook e o Google aumentou nos últimos anos, e as preocupações com o comportamento monopolístico, a exploração mal-intencionada das mídias sociais e os efeitos viciantes dos smartphones tornaram uma indústria que era à prova de balas politicamente vulnerável. Mesmo os iniciados da indústria começaram a aderir à reação.

Para defender-se dos robôs, Yang está promovendo o que ele chama de “Dividendo da Liberdade”, um cheque mensal de US$ 1.000 que seria enviado a todos os americanos de 18 a 64 anos, independentemente da renda ou status de emprego. Esses pagamentos, ele diz, trariam todas as pessoas nos Estados Unidos até aproximadamente a linha de pobreza, mesmo que fossem diretamente atingidas pela automação. O Medicare e Medicaid não serão afetados pelo plano de Yang, mas as pessoas que recebem benefícios governamentais, como o Programa de Suplementação da Assistência Nutricional, poderiam optar por continuar recebendo esses benefícios ou receber os pagamentos mensais de US$ 1.000.

O Dividendo da Liberdade não é uma ideia nova. É a renovação do programa de renda básica universal, uma política que tem sido popular nos círculos acadêmicos e de grupos de altos estudos há décadas, foi uma das preferidas do Reverendo Dr. Martin Luther King Jr. e do economista Milton Friedman e, mais recentemente, chamou a atenção dos tecnólogos do Vale do Silício. Elon Musk, Mark Zuckerberg e o capitalista de risco Marc Andreessen expressaram apoio à ideia de uma renda básica universal. A Y Combinator, influente incubadora de startups, está executando uma experiência de renda básica com 3.000 participantes em dois estados.

Apesar da sua popularidade entre acadêmicos de esquerda e executivos, a renda básica universal é um movimento sem líderes que ainda não entrou na política dominante. Yang pensa que pode vender a ideia em Washington, enquadrando-a como uma política pró-empresas.

“Sou um capitalista”, disse ele, “e acredito que a renda básica universal é necessária para que o capitalismo continue”.

Yang, casado e pai de dois meninos, é um extrovertido de fala acelerada que em geral usa um blazer e jeans sem gravata. Ele mantém um diário das coisas pelas quais é grato e conversas sobre assuntos diversos, usando expressões como “competência básica”. Depois de se formar na Brown University e na Faculdade de Direito de Columbia, desistiu de um emprego em um grande escritório de advocacia e começou a trabalhar com tecnologia. Ele dirigiu uma startup de internet que faliu no primeiro crash das pontocom, trabalhou como executivo em uma startup de cuidados de saúde e ajudou a construir um negócio de preparação para testes que foi adquirido pela Kaplan em 2009, rendendo-lhe uma modesta fortuna.

Populismo e automação

Foi infectado pelo vírus da política depois de iniciar o Venture for America, uma organização modelada após o Teach for America, que conecta os graduados recentes a startups. Durante suas viagens às cidades do Meio-Oeste, começou a fazer a conexão entre o crescimento do populismo contra o establishment com o aumento da automação nos locais de trabalho.

“O motivo pelo qual Donald Trump foi eleito foi que automatizamos 4 milhões de empregos na manufatura em Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin”, disse ele. “Se você olhar para os dados sobre eleitores, verá que quanto maior o nível de concentração de robôs de fabricação em um distrito, mais esse distrito votou em Trump.”

Os oponentes da renda básica universal (UBI, Universal Basic Income, em inglês) também apontaram para seu preço exorbitante – uma despesa anual de US$ 12 mil por adulto americano custaria aproximadamente US$ 2 trilhões, o equivalente a cerca de metade do atual orçamento federal – e a possibilidade de que o dinheiro gratuito poderia encorajar as pessoas a não trabalhar. Essas razões, entre outras, são as razões pelas quais Hillary Clinton, que considerou a adição de renda básica universal à sua plataforma para 2016, concluiu que era “entusiasmante, mas não realista”.

“Em nossa cultura política, existem obstáculos políticos formidáveis para fornecer dinheiro às pessoas em idade de trabalhar que não são empregadas, e é improvável que a UBI possa superá-las”, Robert Greenstein, presidente do Centro de Orçamento e Prioridades de Política, um grupo de pesquisas em Washington, escreveu no ano passado.

Renda básica universal

Yang, no entanto, pensa que pode partir disso. Ele propôs o pagamento de uma renda básica com um imposto sobre o valor agregado, uma cobrança baseada no consumo que ele diz que captaria dinheiro de empresas que lucram com a automação. Um estudo recente do Instituto Roosevelt, um grupo de altos estudos políticos de esquerda, sugeriu que tal plano, pago por um plano tributário progressivo, poderia fazer a economia crescer em mais de 2% e fornecer emprego para 1,1 milhão de pessoas.

“A renda básica universal é uma ideia antiga”, disse Yang. “Mas é uma velha ideia de que agora torna-se extremamente relevante por causa das mudanças pelas quais passamos na sociedade.”

Os importantes defensores de Yang incluem Andy Stern, ex-líder da União Internacional dos Empregados de Serviços, que creditou a ele o fato de “abrir uma discussão sobre o que o país tem medo de ter”. Sua campanha também atraiu algumas das elites do Vale do Silício. Tony Hsieh, o executivo-chefe da Zappos, é um dos primeiros doadores da campanha de Yang, assim como vários capitalistas de risco e ex-alunos de alto nível do Facebook e do Google.

Erik Brynjolfsson, o diretor da Iniciativa do MIT sobre a Economia Digital e  autor de The Second Machine Age, elogiou Yang por ter trazido para a conversa os efeitos econômicos da automação.

“Este é um problema sério, e vai piorar”, disse Brynjolfsson. “Em todas as eleições para os próximos 10 ou 20 anos, isso se tornará uma questão cada vez mais importante, e os candidatos que puderem, deverão falar disso.”

Yang sabe que ele pode soar o alarme de automação sem se candidatar a presidente. Mas ele tem uma sensação de urgência. Na sua opinião, não dá tempo para mexer com papéis do instituto de altos estudos e “super PACs” (comitês de ação política), porque o tempo está correndo.

“Nós temos de cinco a dez anos antes que os caminhoneiros percam seus empregos e tudo fique mais feio do que está.” / Tradução de Claudia Bozzo

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