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01/02/2018 | Desemprego recua, mas postos de trabalho permanecem precários - O Estado de S.Paulo

O mercado de trabalho manteve a tendência de melhora gradual na reta final de 2017. A taxa de desemprego recuou de 12,4% no terceiro trimestre para 11,8% no quarto trimestre. A média do ano, porém, foi de 12,7%, a mais elevada da série histórica iniciada em 2012, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados pelo IBGE.

Houve geração de vagas e recuo no número de pessoas em busca de emprego. A qualidade dos postos de trabalho criados, porém, permanece precária. O total de empregados com carteira assinada no setor privado desceu ao menor patamar da série histórica. Como consequência, 1,1 milhão de trabalhadores ocupados, em média, deixaram de contribuir para a Previdência Social em 2017.

Abaixo, veja exemplos de quatro profissionais que engrossam as estatísticas de precarização da força de trabalho.

Depois de cerca de dez anos trabalhando com carteira assinada na construção civil, como armador de ferragens, principalmente em obras de infraestrutura tocadas por construtoras como Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS, Ubirajara Conceição Rodrigues, de 44 anos, trabalha hoje como vendedor ambulante de água de coco, e isso desde meados do ano passado.

Antes de trabalhar na construção civil, o ambulante já tinha trabalhado vendendo água de coco. Seu último emprego formal foi na Odebrecht. 

“Como esse mercado da construção civil parou, teve uma decadência grande, peguei o dinheiro da minha rescisão, comprei essa barraquinha e voltei a vender água de coco”, disse Rodrigues, enquanto trabalhava numa esquina do centro do Rio. 

Nos dez anos em que trabalhou na construção civil, “o mercado era bom”, especialmente por causa das obras para os Jogos Olímpicos de 2016, mas o trabalhador não se arrepende, porque as “vendas estão boas” na rua. 

Na construção civil, o salário era em torno de R$ 2.000 por mês. Como ambulante ganha em torno de R$ 4.000 mensais, para sustentar a mulher e os três filhos.

Hoje, a empregada doméstica Maria José Francisco, de 35 anos, completa seis meses de carteira assinada, após passar seis anos na informalidade, vivendo de bicos, como manicure e faxineira, enquanto se dedicava aos três filhos pequenos.

A renda mensal, de R$ 1.000, é maior do que os cerca de R$ 500 que ganhava fazendo os bicos, mas ainda não basta para fazer planos de compra para o futuro. 

“No momento, o que está fazendo a diferença é que, com o meu salário, posso pagar a moradia com os meus filhos e manter a alimentação deles, sabendo que não está faltando”, disse Maria José. 

Quando estava na informalidade, era comum ter que explicar aos filhos que não dava para oferecer frutas e biscoitos nas compras do dia a dia por falta de dinheiro. 

Antes de ficar na informalidade, Maria José trabalhou como auxiliar de serviços gerais. Para a doméstica, o emprego formal é importante também para garantir a aposentadoria. 

“Vai chegar um tempo em que o tempo vai passar e você vai envelhecer. O tempo em que você trabalhou e não teve seus direitos foi um tempo perdido”, disse Maria José.

Desde 2014, a cozinheira Raquel Paiva Mezzini, de 47 anos, está na informalidade. O serviço é em bufês para almoços e jantares corporativos, festas, ou cobrindo a falta de profissionais em hotéis ou restaurantes. 

Raquel foi impelida para o mercado informal ao ser demitida do restaurante em que trabalhou por 14 anos. 

Com carteira assinada, ganhava em torno de R$ 4.000 por mês, incluindo horas extra. Agora, fica a mercê da demanda. Em janeiro, ganhou R$ 700. 

“A gente tem de andar com bolsa com sapatos e uniformes sobressalentes, porque, se estou aqui e alguém me liga, a gente vai”, afirmou Raquel, enquanto trabalhava para um bufê na cozinha de um edifício comercial no centro do Rio. 

A cozinheira desistiu de procurar emprego fixo. “Vontade a gente tem, mas, na minha idade, não tenho conseguido mais”, disse Raquel. 

Desde o ano passado, Raquel ganhou a companhia do marido e chefe de cozinha, José Roberto da Silva Agapito, de 51 anos. Ele optou pelo trabalho como freelancer para ter mais “vida” para a família.

Formada há quatro anos em Arte, Eloisa Torrão está sem carteira assinada desde maio do ano passado, quando foi finalizado seu contrato temporário com o museu em que trabalhava como educadora. 

“Antes, os museus costumavam fazer contratos que duravam o período das exposições, como três meses. Agora, pegam só estagiários”, diz. 

Diante da situação, Eloisa passou a trabalhar corrigindo redações de simulados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em uma plataforma online. Com a mudança, sua renda caiu cerca de 40%, e ela passou a atuar como pessoa jurídica. 

Eloisa conta que já não pretende trabalhar como educadora por estar cansada de trabalhos temporários. Aos 26 anos, o período mais longo que passou com carteira assinada foi de um ano.

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